The Truth's For Sale

London em Londres IV – O Desafio à Espiral do Silêncio

Posted in Jornalismo, Literatura by Carlos Hentges on 13/06/2008

Nascida na Alemanha em 1916, Elisabeth Noelle-Neumann especializou-se em demoscopia, isto é, na pesquisa da opinião pública sob organização científica. A partir dos anos 50, ela começou a se interessar pela relação entre imprensa e opinião pública.

Uma de suas primeiras pesquisas apontava que a auto-estima dos alemães diminuía à medida que a mídia fazia mais referências negativas ao povo. A pesquisadora começou a basear seus estudos em uma outra hipótese já existente, a da Agenda Setting, segundo a qual “a imprensa teria o poder de determinar os assuntos principais da população, através da divulgação repetitiva de artigos e notícias sobre certos temas” (HOHLFELDT, p. 191).

Através de uma fundamentação teórica apoiada em Platão, Rousseau, John Locke, David Hume, Alexis de Tocqueville, Walter Lippmann e Gabriel Tarde, Noelle-Neumann começou a perceber que as pessoas tendem a expressar menos sua opinião quando elas imaginam que ela pode estar em minoria ou ser recebida com desdém. Essa posição seria tomada para evitar um possível isolamento do indivíduo, temeroso do que pode acontecer caso declare uma opinião contrária à da maioria.

…a opinião que recebia apoio explícito parecesse mais forte do que realmente era, e a outra opinião mais fraca. As observações realizadas em ambos os contextos se estenderam a outros e incitaram a população a proclamar suas opiniões ou a “engolir” e manter-se em silêncio até que, em um processo em espiral, um ponto de vista chegou a dominar a cena pública e o outro desapareceu da consciência pública ao emudecer seus partidários. Este é o processo que podemos qualificar como de Espiral do Silêncio . (NOELLE-NEUMANN, 1995, p. 22).

Simbólica e visualmente, a influência da suposta opinião majoritária é encarada por Noelle-Neumann como uma espiral do silêncio, porque tende a ampliar-se enquanto silencia aqueles que a opõem, e daí nasce o nome da hipótese que a alemã desenvolveu.

Enfim, em 1972, Noelle-Neumann apresenta um artigo chamado Return to the Concept of Powerfull Mass Media num congresso em Tóquio, onde, segundo Antônio Hohlfeldt.

Partindo do conceito de percepção seletiva e retomando o de acumulação provocada pela mídia, conceito aliás que a então ainda recente hipótese de Agenda Setting havia colocado em circulação, Noelle-Neumann destacava a onipresença da mídia como eficiente modificadora e formadora de opinião a respeito da realidade. (HOHLFELDT, 2001, p.221).

Sete anos depois, a pesquisadora voltaria a estudar a ligação entre mídia e opinião pública, dando uma nova conceituação a esta expressão: “opiniões sobre temas controvertidos que podem ser expressas em público sem isolamento ” (NOELLE-NEUMANN, 1995, p. 88).

Nos anos 80, Noelle-Neumann lançaria A Espiral do Silêncio – Opinião Pública: Nossa Pele Social, livro em que sintetizaria todos os seus estudos sobre o assunto. Nele, a pesquisadora lista as quatro hipóteses que sustentam sua pesquisa, todas relacionadas entre si: primeiro, que as pessoas tem um medo inato do isolamento; segundo, a sociedade ameaça com o isolamento o indivíduo que se desvia; terceira, como conseqüência desse medo, o indivíduo busca captar correntes de opinião; e quarto, os resultados desse cálculo afeta a expressão ou a ocultação de suas opiniões. Sem dúvida, essas suposições podem ser resumidas em um único raciocínio: a opinião pública é entendida como um mecanismo social que torna possível a coesão e a integração dos grupos humanos.

4.1 Opinião Pública e Clima de Opinião

É preciso explicar porque a Espiral do Silêncio é considerada uma hipótese e não uma teoria. Segundo Hohlfeldt,

“uma hipótese é sempre uma experiência, um caminho a ser comprovado e que, se eventualmente não der certo naquela situação específica, não invalida necessariamente a perspectiva teórica. Pelo contrário, levanta, automaticamente, o pressuposto alternativo de que uma outra variante, não presumida, cruzou pela hipótese empírica, fazendo com que, na experiência concretizada, ela não se confirmasse” (HOHLFELDT, 2001, p. 189).

Enquanto uma teoria é um “paradigma fechado, um modo acabado e, neste sentido, infenso a complementações ou conjugações, pela qual traduzimos uma determinada realidade segundo um certo modelo” (HOHLFELDT, 2001, p. 189). Dadas as circunstâncias que serão expostas neste texto, portanto, é mais adequado classificar os estudos de Noelle-Neumann como uma hipótese.

A pesquisadora alemã Elisabeth Noelle-Neumann, através de sua hipótese da Espiral do Silêncio – proposta em 1972 – amplia a definição de opinião pública na direção de temas não exclusivamente políticos. A autora concebe a opinião pública em sua dimensão social, distanciando-se assim das teses elitistas que dominaram sua interpretação no século XIX e grande parte do século XX, convertendo-a em uma espécie de olhar público que vigia todos os âmbitos da esfera social.

Segundo Noelle-Neumann, deve entender-se o publico como um tribunal, como um júri ante o qual devemos nos comportar corretamente se queremos evitar sermos isolados, alienados da vida comum. Essa noção da opinião pública como controle social, que tudo vê e tudo julga, é invisível aos olhos da sociedade.

“Nos damos conta da enorme pressão que exerce sobre todos os membros da sociedade da mesma maneira que não nos fixamos na pressão atmosférica, ainda que por certo ela seja tremenda ” (NOELLE-NEUMANN, 1995, p 107).

Se entendermos que as emoções têm uma natureza lingüística e uma conotação simbólica, o denominado medo do isolamento não é uma exceção. Partimos do princípio que o medo é uma emoção que aprendemos a sentir, produto de um complexo processo de socialização. Apresenta-se como algo criado, intangível, que apenas pode ser expresso através da linguagem e em cujo significado estão presentes discursos dominantes carregados de uma grande dose ideológica. Em síntese, se trata de um imaginário social.

Um imaginário social que depende de condições próprias para existir. O principal argumento que se sustenta a Espiral do Silêncio é o de uma visão individualista das relações. O medo que dá origem à Espiral do Silêncio tem validade única e exclusivamente em formas de organização como a nossa: onde o discurso individualista de prestígio social é básico para alcançar uma boa auto-estima (se não é igual ao outros se é inferior), com um sistema econômico baseado na livre competência e na igualdade individual, com um sistema político baseado na participação democrática, com meios de comunicação influentes e onde a dimensão individual do ser humano constitui o ponto de partida para o conhecimento. Todo esse conjunto de normas escritas e não escritas, convencionais, hábitos e costumes representam o repertório discursivo perfeito capaz de alimentar as idéias de respeito, apreço e aceitação, e que o indivíduo aceita como se fossem resultado de leis cósmicas e universais. Novamente, imaginários sociais.

Esse imaginário social é construído a partir do “clima de opinião”, como afirma Hohlfeldt. Trata-se de uma capacidade que a pesquisadora atribui à população para reconhecer as opiniões alheias. Ao perceber, ou cogitar, que a maioria da população defende um ponto de vista oposto ao seu, o indivíduo tem uma reação previsível: em um primeiro momento se cala, e em seguida se adapta à opinião aparentemente majoritária. O silêncio faz com que uma opinião que inicialmente poderia ser minoritária angarie prestígio e conquiste a simpatia dos indecisos, tornando-a, em um processo em espiral, majoritária.

A influência que exerce sobre o indivíduo aquilo que eles imaginam ser o pensamento dos demais realiza-se num movimento constante, no tempo, ascensional, a que Noelle-Neumann vai denominar de Espiral do Silêncio porque tenderá a ampliar-se, crescendo à medida mesmo que faz com que os demais que eventualmente se lhe oponham silenciem ou sejam silenciados. Assim, uma determinada opinião que, num primeiro momento, ainda que parecesse ser majoritária, fosse na verdade minoritária, tende a efetivar-se como tal, vencendo as eventuais barreiras, graças à tendência à sua verbalização e expressão que ocorrerá de modo crescente no meio social, como que numa espécie de amparo mútuo entre aqueles que a defendem e aqueles que imaginam que tal posicionamento é, de modo efetivo, majoritário. (HOHLFELDT, 2001, p. 231).

4.2 O Papel dos Meios de Comunicação

Na análise que faz a autora não estão ausentes os meios de comunicação de massa. Pelo contrário, o fenômeno da Espiral do Silêncio se baseia na suposição de que são os meios de comunicação a fonte mais importante de observação da realidade com que conta o indivíduo para inteirar-se de quais são as opiniões dominantes e quais que conduzem ao isolamento. Segundo o raciocínio de Noelle-Neumann, o que dizem ou deixam de dizer os meios de comunicação é relevante na construção da opinião pública.

Noelle-Neumann resume essa particular influência midiática naquilo que denomina princípios de “consonância” e “acumulação”, segundo os quais todos os meios de comunicação e todos os jornalistas insistem nos mesmos temas e adotam as mesmas posições, canalizando a atenção do público. Se trataria de uma espécie de pressão ambiental com o efeito de amplificação ou unificação temática, criadora – como disse Noelle-Neumann – de uma “maioria silenciosa” incapaz de compartilhar publicamente sua opinião quando a posição da mídia aparece como oposta. Segundo Noelle-Neumann isso ocorre devido à maneira como está fundamentado o funcionamento dos meios de comunicação, qual seja, uma completa oposição à forma mais tradicional de comunicação, a conversação.

A comunicação pode dividir-se em unilateral e bilateral (uma conversação, por exemplo, é bilateral), direta e indireta (uma conversação é direta), pública e privada (uma conversação pode ser privada). Os meios de comunicação de massa são formas de comunicação unilaterais, indiretas e públicas. Contrastam, pois, de maneira tripla com a forma de comunicação humana mais natural, a conversação. Por isso os indivíduos se sentem desvalidos diante dos meios de comunicação. (…) Essa impotência se expressa de duas formas. A primeira ocorre quando uma pessoa almeja conseguir a atenção pública, e os meios, em seu processo de seleção, decidem não prestar atenção. (…) O segundo aspecto da impotência entra em jogo quando os meios de comunicação são utilizados como um pelourinho; quando orientam a atenção pública anônima entregando a ela o indivíduo como um bode expiatório para ser exibido. Não pode defender-se. Não pode desviar-se das pedras e das flechas. As formas de réplica são grotescas pela sua debilidade, por sua torpeza em comparação com a clara objetividade dos meios . (NOELLE-NEUMANN, 1995, p. 204).

A respeito da Espiral do Silêncio Antônio Hohlfeldt aponta na direção da hipótese como algo que deve ser melhor compreendida, pois elucida as formas como grupos de interesse se apropriam dos meios de comunicação e através deles dialogam com a sociedade a partir de orientações que visam atender sua própria agenda, seja ela explícita ou não.

A hipótese da Espiral do Silêncio é um campo de pesquisa que nos deve alertar para o fato de que todos os que trabalhamos com comunicação social não podemos ser nem preconceituosos nem ingênuos; a mídia, se não tem aquele poder absoluto que se lhe emprestou até a década dos anos 20, por certo possui uma força ainda de todo não dimensionada, graças às diferentes estratégias com que é sucessivamente apropriada por diferentes grupos, políticos ou não, em nossa sociedade. (HOHLFELDT, 2001, p. 240)

4.3 O conservadorismo nos meios de comunicação

Profundas alterações marcaram o Brasil de 1985 ao final da década de 1990, abrindo caminho à disputa pela hegemonia que as crises da Nova República tão bem revelaram. Nesse cenário de rearranjo das forças econômicas e das relações de poder, a grande imprensa nacional desempenhou relevante papel no que diz respeito à difusão dos princípios do novo consenso, pavimentando o caminho para as mudanças que viriam, sobretudo, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, de 1995 até 2002.

Buscando desvendar o papel dos meios de comunicação nesse período, Francisco Fonseca traça um panorama dos órgãos da grande imprensa nacional, a partir da análise dos periódicos Folha de S.Paulo, O Estado de São Paulo, O Globo e Jornal do Brasil.

Assim, a grande imprensa é considerada, neste trabalho, a instituição que, nas sociedades complexas, é capaz de simultaneamente publicizar, universalizar e sintetizar as linhagens ideológicas. Isso porque a periodicidade diária (que lhe confere maior agilidade que as revistas semanais), com todo o aparato de manchetes, editoriais, artigos, charges, fotos, reportagens, dentre outros recursos, possibilita aos jornais uma influência sutil, capaz de sedimentar – embora de forma não mecânica – uma dada idéia, opinião ou representação. (FONSECA, 2005, p. 29).

Essa capacidade de influência que o autor atribui à imprensa, e que encontra paralelo na hipótese da Espiral do Silêncio, torna os meios de comunicação um “instrumento de manipulação de interesses e de intervenção na vida social”, uma estrutura em que “se mesclam o público e o privado”, em que “os direitos do cidadão se confundem com os do dono do jornal” (FONSECA, 2005, p. 30). Trata os grandes jornais brasileiros como formadores de opinião, órgãos que veiculam idéias que pretendem modelar a opinião de seus leitores.

Segundo Francisco Fonseca, essa capacidade detectada na imprensa tende a se manifestar, invariavelmente, através da simplificação e vulgarização de temas. Seu objetivo seria a ausência de debate a respeito das pautas que os órgãos de comunicação consideram ofensivas ao seu espectro ideológico.

Com isso, intentou-se a sua divulgação – para conquistar adeptos – em detrimento, contudo, do aprofundamento do debate e da discussão, que, a rigor, inexistiram no período analisado por essa obra. Afinal, não apenas os grupos considerados adversários foram desqualificados como as idéias que professoram – em razão de estarem em campos ideológicos opostos ao da grande imprensa e portarem outros interesses – foram igualmente desconsideradas e estigmatizadas, o que implicou dar-lhes tratamento hostil, a ponto de considerá-los inimigos. Tal procedimento significa um espetáculo de autoritarismo. (FONSECA, 2005, p. 442).

Esse comportamento, segundo o autor, se deve ao temor de associação da grande imprensa com teses à esquerda. Trata-se da manifestação de uma visão de mundo patronal que busca a “defesa precedente da ‘ordem’ em relação aos direitos sociais e políticos dos trabalhadores” (FONSECA, 2005, 432).

Tudo isso demonstrou que, perfis histórico-editoriais e ideológicos à parte, o limite intransponível para todos os jornais foi (e ainda é) o conflito de classe. Daí a unanimidade quanto à rejeição radical às greves e a todas as expressões de conflito social; a pregação em prol da harmonia entre as classes e a demanda para que os conflitos se resolvam de forma “não conflituosa”, recorrendo à coerção estatal quando esses assim não ocorressem; e daí ainda o apoio à minimização do Estado nas relações econômicas conviver paralelamente ao apelo por sua intervenção nos conflitos sociais, justificando também a aplicação da legislação autoritária provinda do regime militar e mesmo a inscrição de “direitos restritivos” nos que tange à Ordem Social e, sobretudo ao exercício da greve. (FONSECA, 2005, p. 444).

4.3.1 Paralelos no passado

Cem anos antes, Jack London expressou opiniões semelhantes a respeito dos órgãos de imprensa. Em O Tacão de Ferro, os jornalistas em geral são retratados como instrumentos que servem aos desígnios da burguesia capitalista. Praticamente incapazes de relatar a verdade quando o tema são os trabalhadores e suas demandas, os membros da imprensa, na ficção de London, são o ponto mais baixo de uma corrente que mantém atado o proletariado.

Em determinada passagem de O Tacão de Ferro, Ernest Everhard, protagonista da história e alter-ego de Jack London, prevê que a imprensa, comprometida com o capital privado representado pelas empresas, será propositalmente imprecisa no relato de um discurso com traços socialistas realizado por um personagem da trama.

Nenhuma palavra do que ele disse será impressa. Você se esquece dos editores. O que determina o salário que eles recebem são as políticas que eles mesmos traçam, e essa política consiste em não dizer nada que coloque em risco o sistema. As idéias do bispo representam uma agressão contra a moral estabelecida. Foi uma heresia. Eles o retiraram do palanque para que não blasfemasse mais. Os jornais purgarão essa heresia no anonimato do silêncio. A imprensa norte-americana? É um parasita que engorda às custas da classe capitalista. Sua função é servir ao sistema moldando a opinião pública, e desempenha essa função muito bem. (LONDON, 2003, p. 95).

Ao mesmo tempo em que retoma conceitos da Espiral do Silêncio a respeito da poder da imprensa na formação da opinião pública, o trecho apresenta tese semelhante àquela defendida por Francisco Fonseca quando atenta para a rejeição temática diante da possibilidade do conflito social. Em passagem posterior, Jack London apresenta de que forma a imprensa age no sentido de desqualificar aqueles que considera inimigos dos interesses que defende, a partir da análise do destino do mesmo personagem atacado anteriormente.

Foi atacado sem piedade pela imprensa, em editoriais cheios de abuso, com acusações de anarquismo e insinuações de colapso mental. Esse comportamento por parte da imprensa capitalista não era novidade, contou-nos Ernest. Era costume, disse ele, enviar repórteres a todos os encontros socialistas para o expresso propósito de distorcer e relatar de maneira imprópria o que se dizia nesses encontros, com o objetivo de impedir que a classe média pudesse se afiliar ao proletariado. (LONDON, 2003, p. 129).

4.3.2 Semelhanças com a vida real

Jack London, o autor, e não um personagem de ficção baseado no próprio, foi alvo de semelhante tratamento por parte da imprensa. Em 1905, falando a um grupo de empresários, London defendeu abertamente a Revolução Socialista. Na ocasião, afirmou que seus interlocutores “tinham pouca leitura e ainda menor visão” (STONE, 1952, p. 198.) a respeito da classe trabalhadora e suas demandas. A resposta não tardou.

Até então, a Sociedade tinha insistentemente procurado atraí-lo, acoberta-lo, como um gênio literário da Califórnia. Dizia-se como desculpa: “O Socialismo é apenas a sua mania. Um pouco extremado, não resta dúvida. Mas é tão jovem, tão original! Todas essas teorias políticas não passam de fogo de palha. Acabam com o tempo”. Mas agora a coisa era outra. Todas as portas se trancavam diante dele. Não era mais convidado a chás mundanos nem a jantares de cerimônia, onde aparecia antes com a sua camisa branca de seda, a sua gravatinha borboleta e seu terno de linho bem engomado. Porque a “sociedade” descobrira afinal que ele falava sério quando dizia com tanta graça, naquelas mesas de banquete, que ela era uma classe de parasitas. (STONE, 1952, p. 199).

No mesmo ano foi lançado Guerra de Classes. London aproveitou-se da polêmica desencadeada em torno de seu nome pelas palestras defendendo o Socialismo para apresentar uma obra que condensa seu pensamento a respeito da evolução da doutrina e da maneira como ela era percebida pela população norte-americana graças à mediação da imprensa.

Quando eu era mais jovem, eu era olhado como uma espécie estranha de criatura, porque, na verdade, eu era socialista. Repórteres dos jornais locais me entrevistavam, e as entrevistas, quando publicadas, eram estudos patológicos de uma estranha e abominável espécie de homem.

O texto aborda a ausência de debate a respeito da doutrina Socialista na sociedade norte-americana devido ao silêncio de três instituições fundamentais na formação social a respeito do tema: a imprensa, a igreja e a academia.

Centrando a discussão no que tange os órgãos de comunicação, o texto de Jack London, publicado originalmente em 1905, aponta um comportamento também detectado por Francisco Fonseca em O Consenso Forjado. Ao passo que London enfrenta um clima de opinião que se recusa a apreender o conflito de classes na sociedade norte-americana, Fonseca denuncia a desconsideração e estigmatização de pontos de vista que divergem do conteúdo ideológico da chamada grande imprensa.

Apesar de seu otimismo constitucional, e porque o conflito de classes é uma coisa aborrecida e perigosa, o grande povo Americano é unânime em afirmar que não há conflito de classes. E por “povo Americano” se quer dizer as reconhecidas e autoritárias bocas do povo Americano, que são a imprensa, o púlpito e a universidade. Os jornalistas, os religiosos e os professores são praticamente uma voz única declarando que não há coisa como o conflito de classes ocorrendo agora, e um conflito de classes jamais ocorrerá nos Estados Unidos. E esta declaração continuamente constrói a aparência de uma multidão de fatos que impedem, não tanto sua sinceridade, como afirmam, especialmente, o seu otimismo .

Segundo Tarso Fernando Genro, os meios de comunicação são um dos campos de embate entre as classes dominantes e o movimento operário. É nele em que, enquanto o capital busca formas de acentuar a alienação, o proletariado visa encarar o enfrentamento ideológico com os valores globais do capitalismo. Trata-se, na visão do autor, uma disputa desigual, mas que não pode ser abandonada.

Para os intelectuais de vanguarda, hoje acresce-se à tradicional tarefa de sistematizarem e criarem, a partir de experiências do movimento operário, um combate pela organização de instituições político-culturais para discutir a hegemonia também num outro nível, a saber: no espaço em que os meios de comunicação, originários do capitalismo monopolista lançam a sua ética desagregadora pretendendo passar por universais os seus valores típicos. Além da disputa pela “opinião operária” devemos enfrentar a disputa desigual pela “opinião pública”, que principalmente nos momentos de evolução pacífica da luta de classes jogam um papel extremamente importante na luta política. (GENRO, 1987, p. 62).

A luta pelo fortalecimento da classe trabalhadora, na opinião de Tarso Fernando Genro, tem como fim a ampliação de sua influência na sociedade em geral. Para tanto, aponta dois caminhos possíveis, ambos tendo como princípio fundamental a utilização dos órgãos de comunicação.

A formação de referências políticas radicais, que abram trânsito nos órgãos da grande imprensa (rádio, jornais, TV), referências essas apoiadas na necessidade objetiva dos órgãos de imprensa de concorrerem entre si, torna-se uma tarefa de primeira grandeza. Estas referências culturais, políticas e intelectuais, que tanto podem ser pessoas quanto entidades, não substituem a imprensa operária, quer a de caráter formativo/organizativo, quer a de caráter agitativo, esta amparada na denúncia política e na disputa entre os valores do capitalismo e do socialismo revolucionário. Elas podem, porém, neutralizar, com meia dúzia de verdades, centenas de manipulações, jogando a máquina de manipulação burguesa contra a própria classe dominante. (GENRO, 1987, p. 64).

4.4 Ataque contra o silêncio

Se não tinha o propósito de jogar a máquina de manipulação burguesa contra a própria classe dominante, Jack Lodon ao menos acreditava que poderia fazer um bom trabalho na pregação do Socialismo. Não lhe escapava a certeza de que, mesmo polêmicos e ponto de partida para acirradas críticas nos órgãos de comunicação, seus discursos, palestras e textos contribuíam para a expansão de seu ideário no país modelo do Capitalismo, os Estados Unidos da América.

Sua percepção a respeito do comportamento social, fruto de ávidas leituras nos campos da política, economia e sociologia, apontavam para a necessidade de um texto forte, capaz de atingir a consciência embotada da burguesia para a miséria chocante que existia e se expandia na Londres de 1900.

Para tanto, produziu em O Povo do Abismo um tipo de reportagem que visava, mas do que dialogar com o leitor, despertá-lo. Não bastava que o leitor fosse informado, ele precisava ser conscientizado da situação que ocorria. Passando por temas como a alimentação, a taxa de mortalidade, as condições de higiene e a legislação aplicada aos moradores mais pobres de Londres, Jack London buscou cumprir esse objetivo.

Uma das situações que intrigou o autor era o fato de que, enquanto transitava como um marinheiro norte-americano enfrentando tempos difíceis em Londres, constantemente se deparava com pessoas dormindo, durante o dia, em parques, calçadas e qualquer lugar onde pudessem descansar por alguns minutos com um mínimo de conforto. Descobriu que havia uma lei que proibia os moradores de rua de dormir à noite. Aqueles que não conseguiam vagas no albergues noturnos, e eram muitos, ou não tinham condições de pagar uma cama, mesmo a mais imunda, e eram quase todos, precisavam vagar pela madrugada.

Naquele mesmo dia, a uma da tarde, fui ao Green Park e contei dezenas de pobres maltrapilhos dormindo na grama. Era domingo à tarde, o sol aparecia de forma intermitente, e os moradores bem-vestidos do West End, com suas esposas e filhos, ocupavam as ruas aos milhares, tomando um ar. Para eles não era agradável olhar para aqueles vagabundos horríveis, descabelados, sonolentos, e sei que os vagabundos, se dependesse deles, teriam preferido dormir bem na noite anterior. E assim, meu querido e bondoso povo, quando visitarem a cidade de Londres e virem esses homens dormindo nos bancos e na grama, pro favor não pensem que são criaturas preguiçosas, que preferem dormir a trabalhar. Saiba que os poderes constituídos os obrigam a perambular a noite inteira e que, durante o dia, ele não tem outro lugar onde dormir. (LONDON, 2004, p. 158).

Sobre as condições de vida dos moradores de rua, Jack London insiste na questão a respeito das oportunidades que tem os membros dessa população para descansar.

Para os bem-alimentados e inocentes, deixe-me explicar o que é um abrigo ou um albergue noturno. É um lugar onde os sem-teto, sem-cama e sem-tostão, se tiverem sorte, eventualmente podem descansar os ossos exaustos e pagar por isso no dia seguinte, trabalhando como operários em escavações, construções de estradas etc. (LONDON, 2004, p. 119).

A insistência pode ser observada não apenas no tema, mas também na forma de apresentá-lo. London não apenas fala aos londrinos aparentando maior propriedade sobre algo que ele, norte-americano, encontra, mas o faz como se os moradores da capital inglesa jamais, em outras condições, teriam ciência dos fatos que narra.

E há 35 mil deles, homens e mulheres, em Londres nessa noite. Por favor, não pense nisso quando for para a cama; se você for tão bondoso quanto deveria, talvez não consiga dormir como o faz toda noite. Para homens de 60, 70, 80 anos, mal-nutridos, sem carne e sem sangue, saudar o amanhecer sem ter tido a chance de se revigorar, passar o dia cambaleando numa busca insana por restos, com a noite inexorável novamente se aproximando, e fazer isso cinco dias e noites…Ah, gente bondosa e bem-nutrida, como é que um dia poderão entender? (LONDON, 2004, p. 128).

Jack London não acreditava que a imprensa poderia fazer bem o seu trabalho quando o objeto de uma reportagem eram os moradores de rua. Não fosse essa crença, não haveria necessidade de apresentação do tema aos leitores como algo estranhamente novo. Ainda que faça uso de dados apresentados pela imprensa londrina da época em suas pesquisas, em apenas um momento o autor explicita esse ponto de vista crítico a respeito da atuação dos órgãos de comunicação em O Povo do Abismo.

Tudo isso foi muito ruim para os proprietários, com certeza, mas, na pior das hipóteses, nenhum deles, sequer por uma refeição, ficaria sem comida ou bebida. E foi justamente a eles que os jornais dedicaram colunas e colunas, detalhando suas perdas pecuniárias por páginas sem fim. (…) Já os colhedores, eram como se não existissem. E ainda assim ouso afirmar que as diversas refeições perdidas pelo subnutrido Willian Buggles, e pela subnutrida senhora Buggles, e pelos filhos subnutridos dos Buggles, eram uma tragédia bem maior do que as 10 mil libras perdidas pelo senhor F. Além disso, a tragédia do subnutrido Willian Buggles podia ser multiplicada aos milhares, ao passo que a do senhor F. não podia ser multiplicada por cinco. (LONDON, 2004, p. 197).

A passagem narra os efeitos de uma tempestade sobre as plantações de frutas, e conseqüentemente, sobre o resultado da colheita. Os personagens em questão são Willian Buggles e sua família de colhedores, e o senhor F., um rico proprietário.

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