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London em Londres II – Marinheiro a Cavalo

Posted in Jornalismo, Literatura by Carlos Hentges on 10/06/2008

Nascido em São Francisco, em 12 de Janeiro de 1876, Jack London cresceu em um mundo que testemunhava a mudança. Os dias de uma economia dominada pela agricultura eram substituídos pelo mundo da máquina, da fábrica, e do capital financeiro.

Filho de um astrólogo, William Henry Chaney, Jack foi batizado pela mãe John Griffith Chaney. Manteria esse nome ao longo de apenas oito meses, até Flora Wellman se casar com John London. A vida do casal não foi fácil, passando por dificuldades financeiras e seguidas falências e mudanças de moradia. Já na fase adulta, Jack London lembraria desses dias atribulados da infância como um período assustador e de amarga pobreza.

O espírito de Jack London era como um sismógrafo que registrava o mais ligeiro tremor. E tremores não faltaram, pois os treze anos que se seguiram na vida da família foram gastos nas privações e em sucessivos fracassos. Disse muitas vezes que nunca teve propriamente uma infância e que as primeiras recordações de sua existência eram sombreadas pela pobreza. E não havia nada que apagasse essa sombra. (STONE, 1952, p. 36).

Sua família estava continuamente em movimento para encontrar subsistência. Aos dez anos Jack London vendia jornais para suplementar a renda magra dos familiares. A vida de trabalho duro, porém, não lhe roubou a atenção da leitura, prazer que descobriu cedo, ainda que tivesse tempo restrito para dedicar à atividade.

Tinha assim pouco tempo para ler, mas, em compensação, começava a aprender diretamente as lições da vida, brigando com outros jornaleiros, assistindo as rixas de botequim, entrando em contato com a pitoresca realidade do cais de Oakland , onde se viam embarcações de toda a natureza, navios de pesca à baleia, cargueiros que vinham dos mares do sul, barcos de contrabandistas de ópio, veleiros americanos, juncos chineses, barcos gregos, escunas, chulapas, lanchas de polícia marítima etc. E da mesma forma que aos dez anos saiu da casa dos London para viver no mundo de aventuras dos livros, agora, aos treze, resolveu fugir de novo, ganhando o caminho das docas e do mar. (STONE, 1952, p. 39).

Transformou-se em “uma besta de carga” que trabalhou em uma fábrica de conservas, uma fiação de juta, uma lavanderia, e em uma usina de força da estrada de ferro de Oakland. Trabalhou por dez centavos à hora, de treze a quatorze horas por dia, sete dias por semana. Nesse período, aos dezessete anos, recebeu uma lição que seria fundamental para os rumos que sua vida viria a tomar, como anota Maria Sílvia Betti na introdução de O Povo do Abismo.

A procura por um melhor salário o levou a empregar-se numa usina de força da estrada de ferro de Oakland, onde passou a trabalhar alimentando as fornalhas com carvão. Tal foi a eficiência demonstrada por ele na execução da tarefa, que dois outros operários do período diurno e um do noturno foram imediatamente demitidos após a sua contratação, sendo que um deles veio a cometer suicídio em decorrência da depressão pela perda do emprego. Esse acontecimento levou Jack London a repensar seriamente sua relação com o trabalho e a desenvolver o mais absoluto horror pelas condições de exploração e de miséria vigentes. Sua análise da situação o fez concluir que dispunha de duas alternativas diante do sistema: matar-se ou tornar-se um vagabundo. E sua escolha recaiu sobre a segunda. (BETTI, 2004, p. 14).

2.1 O Socialismo de Jack London

Curiosamente, a vida continuou lhe prestando lições, pois antes de seguir o caminho da vagabundagem, imaginava que os vagabundos o eram por gosto, porque queriam a malandragem e a aventura sem responsabilidade ou porque eram preguiçosos, estúpidos ou beberrões. Mas, embora acreditasse que muitos desses homens seriam sempre elementos inadaptáveis sob qualquer ordem econômica, não tardou a ver que a maioria era de gente tão boa quanto ele próprio – marinheiros e operários naufragados na vida, postos fora de forma pelo excesso de trabalho, privações e acidentes; velhas bestas de carga como ele fora, criaturas que rodavam nas estradas sem um cobertor, sem roupa para mudar, sem ter o que comer. Quando batia de porta em porta, pedindo comida em companhia desses pobres diabos, ou quando tiritava de frio com eles nos vagões de bagagem ou nos bancos de jardins, London ouvia histórias de vida que tinham começado sob promessas tão risonhas quanto as da sua, e que terminavam tropeçando de degrau em degrau até o plano mais baixo da sociedade.

O tema é ponto de partida para o conto Como me tornei socialista. Nele, após uma temporada na prisão por vadiagem, London reflete a respeito do período em que viajou clandestinamente em trens pelos Estados Unidos durante a juventude, vivendo na companhia de homens muito parecidos com ele.

Lá me deparei com todas as espécies de homens, muitos dos quais já haviam sido, uma vez, tão aptos, ousados e aventureiros quanto eu; homens do mar, homens das armas, trabalhadores, todos exaustos, comidos e desfigurados pelos esforços, pelas asperezas e acidentes imprevistos, agora deixados de lado por seus senhores como velhos cavalos. Eu me arrastei pelas ruas e mendiguei nas portas dos fundos das casas junto com eles, sentindo os mesmo calafrios em vagões e parques da cidade, ouvindo aqui e ali histórias devidas que tinham começado tão auspiciosas quanto a minha, com estômagos e corpos tão bons ou talvez até mais fortes que os meus e que findavam ali, ante os meus olhos, na destruição do Abismo Social. (LONDON, 1997, p. 112).

Eram homens cujos ofícios tinham desaparecido na mudança dos tempos e que não souberam encontrar novas condições de vida ou a elas se adaptarem. Homens suplantados pelas máquinas, substituídos por mulheres e crianças que recebiam salários mais baixos, postos fora do emprego pela crise e nunca mais recolocados. Gente que preferia vagabundear de terra em terra a ficar parada no desconforto dos cortiços. Eram homens que tinham feito greve contra o excesso de trabalho e baixo salário e viram os seus empregos tomados por furadores de bloqueios, ficando na lista negra dos patrões.

London viu que dentro de cinco, dez ou vinte anos, também teria o lugar tomado por outro homem mais jovem e mais forte, também ficaria fazendo parte da miséria dos cortiços e da vagabundagem da estrada. Duas coisas se firmaram em sua cabeça: primeiro, que teria de educar-se para poder trabalhar com o cérebro e não com os músculos, mais fáceis de serem substituídos; segundo, que devia existir qualquer coisa de errado num sistema econômico que tirava de um homem os melhores anos da sua vida produtiva, para depois atirá-lo no desemprego e na miséria, criando uma tragédia para o indivíduo e a sua família, brutalidade e desperdício para a sociedade. Sobre isso, anos mais tarde, ele registraria nas páginas de O Povo do Abismo:

Quando há mais homens do que trabalho a ser feito, ocorre a inevitável peneiragem. Em cada ramo da indústria, os menos eficientes são passados para trás. E sendo passados para trás por causa da ineficiência, não podem crescer, apenas decair, e continuam decaindo até atingirem seu nível adequado, um lugar no sistema industrial onde são eficientes. Segue-se, portanto, e isso é inexorável, que os menos eficientes têm de decair até o fundo, onde mora a destruição na qual definham miseravelmente. (…) Aqui, então, temos a construção do Abismo e das ruínas. Por todo o sistema industrial está em curso uma eliminação constante. Os ineficientes são extirpados e jogados para baixo. (LONDON, 2004, p. 221).

O caminho de Jack London na direção do socialismo dos livros começou cedo, por volta dos dezessete anos. Suas primeiras leituras tiveram forte conotação utópica.

Estudando as obras de Bebeuf, Saint-Simon, Fourier e Proudhon, Jack ali encontrou os primeiros ataques contra a propriedade privada e a primeira diferenciação classes econômicas. (…) Mas também anotou que esses precursores, embora tivessem preparado o caminho para a revolução, não tinham sido capazes de criar um mecanismo por meio do qual viesse a instituir-se o Estado socialista. Esperavam que os patrões dessem o socialismo aos operários pela bondade cristã de suas almas… (STONE, 1952, p. 77).

Foi um viajante que teria lhe dado a primeira lasca de informação a respeito do Manifesto Comunista, de Karl Marx. O livro iluminou seus pensamentos, pois continha aquilo que London considerou serem os instrumentos para a construção do Estado socialista.

Jack observou em seu caderno: “Toda a história da humanidade tem sido a História das lutas entre exploradores e explorados; a história dessas lutas de classe mostra a evolução da civilização econômica da mesma forma que os estudos de Darwin mostram a evolução do homem. Com o advento do industrialismo e da concentração de capitais atingiu-se um estágio social em que os explorados não podem emancipar-se da classe dirigente sem com isso, e de uma vez por todas, emancipar a sociedade em geral de explorações futuras, de opressão, de diferenças e lutas de classe”. (STONE, 1952, p. 78).

2.2 O papel do Socialismo em sua obra

Esse conjunto de leituras encaminhou Jack London na direção do socialismo. Isso fez com que ele se juntasse a um grupo de estudiosos na cidade de Oakland. Ele viria a ser conhecido como “o menino socialista de Oakland” (STONE, 1952, p. 83). Eram intelectuais, teóricos não diretamente envolvidos na luta de classes, pois nenhum trabalhador se havia ainda juntado ao partido. Embora grato pelo bom acolhimento e pela instrução que ali encontrava, Jack não podia crer que o socialismo pertencesse aos intelectuais. Acreditava que pertencia aos operários e que devia surgir uma nova etapa no desenvolvimento da civilização.

Em O Tacão de Ferro, obra que une ficção científica e polêmica social ao tratar das ações de um grupo de proletários buscando alcançar a Revolução Socialista nos Estados Unidos da América, Jack London coloca na boca de um personagem aquela que é sua opinião a respeito da apropriação da doutrina por parte de intelectuais que pouco ou nada conhecem a classe operária.

Sejam fiéis ao salário e ao aluguel; guardem, em suas prédicas, os interesses de seus patrões, mas não se dirijam à classe operária para servir-lhe de falsos guias. Os senhores não conseguiriam estar nos dois campos ao mesmo tempo. A classe operária tem-se virado muito bem sem os senhores; e, podem acreditar, ficará muito bem assim. E, além disso, ela se dá melhor sozinha do que com os senhores. (LONDON, 2003, p. 30).

Publicado originalmente em 1908, O Tacão de Ferro – título que referencia o instrumento que a elite capitalista utiliza para controlar o proletariado – retoma alguns dos pontos que Jack London já havia abordado em O Povo do Abismo.

As pessoas que tentam ajudar! As suas obras sociais, missões, demonstrações de caridade, e todo o resto, são embustes. Ainda que bem-intencionados, seus projetos são concebidos equivocadamente. Essas pessoas pensam na vida a partir de um juízo malfeito sobre a vida dos pobres. Não entendem o West End e, mesmo assim, vão para o East End como se fossem professores e sábios. (…) Como disse alguém, fazem tudo pelos pobres, menos descer de suas costas. (LONDON, 2004, p. 310).

É interessante perceber como o homem Jack London precisa lutar contra um dilema interior. Ao passo que percebe no Socialismo uma possibilidade para a salvação do outro, deseja o conhecimento e o sucesso que o levariam acima da planície degradada da pobreza. Nos primeiros trabalhos de Jack London é clara uma filosofia individualista. Em seu coração e simpatias, era um socialista; não poderia esquecer-se dos sofrimentos de seu passado. Mas nas ações que se esforçou para levar adiante, era um individualista. Ele não poderia esquecer-se de suas realizações. Durante toda a vida ele buscou conciliar essas filosofias se opondo.

Esse dilema, porém, não o impediu de escrever sobre e para a classe trabalhadora com precisão que viria a ser reconhecida. Em 1929, a publicação New Masses, voltada para a classe operária, escreveu o seguinte a respeito do autor, já treze anos após a sua morte:

Um escritor proletário não deve utilizar apenas a sua vida proletária como material; a sua obra deve arder com o espírito da revolta. Operários que lêem, lêem Jack London. É o único autor que todos tem lido, a única experiência literária que todos tiveram em comum. Trabalhadores de fábricas, de fazendas, marinheiros, mineiros, jornaleiros, já o leram e lêem de novo. É o escritor mais popular da classe operária norte-americana. (STONE, 1952, p. 153).

A vida entre operários lhe valeu a experiência que, aliada à capacidade intelectual, concebeu mais de cinqüenta livros ao longo de vinte anos de produção literária contínua. Identificado com essa parcela da população, Jack London trouxe suas mazelas à tona por meio da literatura realista na virada do século XIX para o XX.

Essa aproximação leva Maria Sílvia Betti a pontuar as diferenças entre Jack London e seus predecessores dentro do estilo literário realista norte-americano. Stephen Crane e Frank Norris eram estranhos nos submundos da sociedade em que London cresceu e amadureceu física e intelectualmente.

Embora realista, como Crane e Norris, London diferencia-se de seus antecessores por dois aspectos fundamentais: em primeiro lugar, pelo fato de ter experimentado na carne a realidade da miséria tanto do trabalhador explorado como do morador de rua e do imigrante e, em segundo, pelo fato de ter sido, durante grande parte de sua vida, um militante fervoroso da causa socialista, que abraçou ainda adolescente e defendeu até pouco tempo antes de sua morte prematura, aos 40 anos de idade. Ao contrário do que ocorreu com tantos outros escritores, a opção de Jack London pelo socialismo não proveio dos contatos literários ou intelectuais, e sim de sua vivência da condição proletária, da fome e da falta de perspectivas de subsistência. Foi isso que lhe deu elementos para encontrar no socialismo um importante instrumento de análise e de crítica das condições vividas e documentadas em seus escritos. (BETTI, 2004, p. 10).

Munido da experiência e dos dados que acumulou ao longo de toda a vida e matinha organizado em extensos fichários de obras anotadas, Jack London encaminhou-se na direção do que sabia ser o mais profundo abismo social conhecido. O mais acabado retrato do fracasso capitalista: o East End de Londres.

Sua história de vida combinada à disposição pessoal em lançar-se em todo o tipo de aventura forneceu-lhe material bruto para um tipo de narrativa que ao mesmo tempo em que atendia a um público preexistente, afeito a narrativas exóticas e romanescas, abria perspectivas para a captação de novos leitores, atraídos pelos aspectos de denuncia social e pelo realismo de expressão, conforme aponta Irving Stone.

Passou como um marinheiro americano que deixara o navio. Tornou-se mais uma vez o marinheiro Jack, representando tão facilmente o papel como se nunca tivesse sido outra coisa na vida. Não era nenhum estranho, nenhum pesquisador que olhasse academicamente, de alto a baixo. Era um homem como os outros homens da zona, um marujo que andava mal de vida. O pessoal de East End aceitou-o, deu-lhe confiança, conversou com ele. E o que pode aprender no meio desse rebotalho humano está nas páginas de O Povo do Abismo, livro ainda atual, vigoroso e verdadeiro, uma das obras clássicas do mundo sobre a sorte dos miseráveis. (STONE, 1952, p. 163).

Sobre O Povo do Abismo, Maria Sílvia Betti escreveu o seguinte:

…O Povo do Abismo é sem sombra de dúvida um livro que coloca de forma muito clara a necessidade de se realizar a crítica do sistema capitalista dominante e de fazê-lo a partir do olhar dos explorados. Ainda que este fosse seu único mérito, ele já justificaria plenamente o convite que o livro faz ao leitor contemporâneo de mergulhar no abismo social do East End e de flagrar alguns aspectos alarmantes da exclusão social que continuam sendo dolorosamente atuais. (BETTI, 2004, p. 56).

Esclarecida a infância e adolescência de trabalho duro que levaram Jack London a forjar seu caráter e encaminhá-lo na direção da doutrina socialista, no próximo capítulo vamos analisar de que forma O Povo do Abismo foi escrito. Para isso, levaremos em conta as técnicas de reportagem jornalistica empregadas na obra, bem como vamos explorar a zona cinza que alguns autores afirmam existir entre o jornalismo e a literatura.

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Uma resposta

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  1. Eliane Maria dos Reis said, on 06/11/2008 at 12:38

    Muito bom, excelente, não tenho palavras para expressar, uma vez que tentei localizar em bibliotecas o livro “Caninos Branco” e não encontrei, amei o texto.
    Eliane Reis


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