The Truth's For Sale

London em Londres I – Introdução

Posted in Jornalismo, Literatura by Carlos Hentges on 09/06/2008

No ano de 1902, o escritor Jack London se dirigiu até o coração da miséria londrina para descobrir como viviam, se é que o faziam, as criaturas mais pobres do país mais rico do mundo. Entre sua chegada aos bairros que formavam o East End e o fim de suas pesquisas, três meses se passaram. Nesse período, o autor reuniu material para o livro que viria a batizar de O Povo do Abismo.

O resultado do trabalho de Jack London é uma longa reportagem. Para sua concepção, o escritor não apenas entrevistou, fotografou e comparou dados. Ele viveu com os habitantes do East End. Não encarnou um acadêmico com olhar superior de analista, mas retomou o papel de marinheiro norte-americano passando por tempos difíceis em uma terra de reis e rainhas. Não precisou compor um personagem, apenas trouxe à tona as memórias de sua juventude. Dessa aproximação resultou o material necessário para um livro que tem o autor e todos os miseráveis de Londres como personagens.

Ao longo de O Povo do Abismo Jack London apresenta “onde”, “como” e “porque” – as clássicas perguntas do jornalismo – os moradores do East End comem, dormem, trabalham, se relacionam e sobrevivem. Explicita seus desesperos e suas pequenas satisfações. Apresenta como vêem o mundo e de que maneira se tornam invisíveis a ele. Em pouco mais de duzentas e cinqüenta páginas o leitor se depara com reportagem, opinião e crítica. Puro jornalismo!

Mas Jack London era um escritor, ainda que tenha atuado como repórter em mais de uma oportunidade. Suas raízes estavam fincadas no “jardim da imaginação”, e não no “império dos fatos”, segundo as definições criadas por Rildo Cosson (2002, p. 57). Escritor profissional desde os vinte anos, encontrou na literatura realista o seu espaço. Através de relatos vigorosos da vida em ambientes inóspitos, se tornou o autor mais popular e mais bem pago do mundo nas primeiras décadas do século XX.

O colorido das histórias que escreveu se deve especialmente ao toque autobiográfico de sua produção. Diversos de seus livros são versões romanceadas de acontecimentos que o próprio vivenciou. Suas primeiras obras se caracterizam pela união de entretenimento com relato de viagem e contato com ambientes exóticos.

Mas a vida de Jack London, e por conseqüência sua obra, não foram apenas influenciadas pelo seu gosto pela aventura. Muito cedo ele se descobriria socialista. E se não tinha o conhecimento da letra revolucionária na adolescência, tivera desde a infância experiências que moldaram um caráter que, já na fase adulta, viria a descobrir nos livros uma doutrina compatível.

O Povo do Abismo é o livro que inaugura uma vertente da obra de Jack London que atingirá seu ápice em O Tacão de Ferro. Neste, o autor utiliza-se de uma combinação de ficção e extensa pesquisa para contar a história de um grupo articulando a revolução socialista nos Estados Unidos da América. No primeiro, London realiza um trabalho igualmente extenso de reportagem para demonstrar o que a civilização está fazendo com os seus integrantes, por motivos diversos, menos eficientes. E com isso, busca conscientizar para a necessidade da revolução socialista.

A veemência de certos argumentos, a agressividade de outros, iremos ver, demonstram o entusiasmo do autor pelo tema. E nubla a sua visão para os fatos em si, temor manifesto em mais de uma oportunidade. Nessas ocasiões, London dá voz a terceiros que antes dele realizaram trabalhos semelhantes. As fontes se somam e traçam um panorama mais preciso dos fatos.

London queria ver, sentir, experimentar. Segundo o autor, a realidade precisa ser apreciada para ser corretamente apresentada para a população bem alimentada e vestida que lerá sua obra. Analisar o resultado dessa proposta é o objetivo deste trabalho, tendo como base o que London deixou registrado nas páginas de O Povo do Abismo.

O primeiro capítulo trata da vida de Jack London, especialmente no que diz respeito aos seus rumos na direção do Socialismo. A importância de tal abordagem se justifica diante da, já citada, forma como a literatura produzida pelo autor se apropriava de acontecimentos de sua vida.

O segundo capítulo irá buscar uma análise da relação entre o jornalismo e a literatura. Existindo em uma zona cinza entre os dois gêneros narrativos, o estilo é simultaneamente alvo de críticas e elogios. Os motivos que levam a um caminho ou a outro, com argumentação aplicada a trechos de O Povo do Abismo, será tratado aqui.

O terceiro e último capítulo aborda a hipótese de opinião pública conhecida como A Espiral do Silêncio. Aplicando seus preceitos em combinação a O Povo do Abismo, pretende-se discutir a forma como é retratada uma população marginalizada, e de que maneira o autor pretendeu prestar um serviço de esclarecimento jogando luz nos indivíduos que são personagens de sua obra.

Esse trabalho parte de algumas hipóteses. A primeira delas é a de que a técnica literária contribui para a ampliação da qualidade jornalística. Concomitantemente, pressupõe que o emprego de técnicas jornalísticas eleva a qualidade do trabalho literário, especialmente em se tratando da literatura realista de Jack London.

Por fim, o trabalho pretende demonstrar como Jack London, através de suas inúmeras experiências de vida, captou aquilo que é chamado de “clima de opinião” dentro da hipótese da Espiral do Silêncio, o que permitiu ao autor buscar, em O Povo do Abismo, formas de conceder voz a populações marginalizadas.

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