The Truth's For Sale

Uma olhada no Overmundo

Posted in Jornalismo by Carlos Hentges on 08/05/2008

Um dos idealizadores do projeto Overmundo, Hermano Vianna é antropólogo, autor dos livros “O Mistério do Samba” e “O Mundo Funk Carioca”. De acordo com ele, “o que a história da internet demonstrou, desde o início, é que as pessoas não querem só consumir coisas produzidas por uma minoria, as pessoas querem também produzir suas próprias notícias, seus próprios conteúdos em texto, vídeo”.

Pra começar, você podia falar um pouco a respeito do OVERMUNDO, no contexto do que existe de web 2.0 no Brasil…

Bom, de web 2.0 no Brasil, o que eu vejo acontecer são sessões de determinados sites que estão abrindo para a produção colaborativa de conhecimento, para que os usuários possam colaborar etc. Tem experiências bem interessantes, como a experiência do Estadão (de você enviar fotografias), o Jornal do Brasil também começa a publicar textos que as pessoas enviam pelo site. O que tem acontecido, que a gente pode chamar de web 2.0 no Brasil, são mais aspectos de determinados sites que estão se abrindo pra esse tipo de produção colaborativa de conhecimento. Eu acho que a web comercial no Brasil começou com a mentalidade de que, na Internet, iria se reproduzir o que a gente já conhece nas mídias de massa tradicionais, que era uma produção de conteúdo feita de forma centralizada e com uma grande audiência. O que a história da Internet demonstrou, desde o início, é que as pessoas não querem só consumir coisas produzidas por uma minoria, as pessoas querem também produzir suas próprias notícias, seus próprios conteúdos em texto, vídeo etc.

Isso tem feito com que se aumente muito o conteúdo disponível na rede. Esse aumento pode ser um catalisador para o refinamento dos mecanismos de busca como, por exemplo, o mecanismo de busca do Google, que segue uma espécie de orientação da massa, como tu mesmo disseste… esse refinamento é uma expectativa em relação à Internet? Isso já está acontecendo?

Eu acho que esse é um grande desafio – de como você pode encontrar a informação dentro da Internet. Eu acho que esse é o desafio básico, porque hoje em dia tem muito mais gente produzindo coisas interessantes por aí, de musica, cinema, textos, blogs… é muita gente mesmo escrevendo e como é que você vai ter acesso àquilo que te interessa? Muitas coisas vão acabar passando sem você ver, sem você ao menos chegar perto daquilo ali, então, para a maior parte das ferramentas de busca, o que tem interessado mais é o modo como você pode criar buscas personalizadas. É claro que eu posso estar buscando uma coisa que é parecida com a pessoa que tem um outro interesse completamente diferente do meu, então, o resultado da minha busca e o resultado dessa outra pessoa tem que ser diferentes, porque nós não vamos nos interessar pelas mesmas coisas. Essa personalização da busca é um grande desafio que não está ainda sendo desenvolvido, mas eu vejo, por exemplo, quando você usa o Gmail, o Google fica pesquisando o tipo de assunto que você troca nas suas mensagens e a idéia é que depois ele veja o que você se interessa a partir dos seus e-mails e que o resultado de suas buscas tenham a ver com o que você já se interessa. Isso depende muito também do que você quer manter privado nas suas trocas de informação. Esse é outro desafio porque, para personalizar, você tem que entregar informações de quem você é e do que você gosta. Como é que você vai entregar e confiar que as pessoas vão fazer bom uso disso?

Boa parte do que é disponibilizado hoje na rede é fruto de uma digitalização feita por terceiros e não pelos proprietários dos direitos autorais ou pelos próprios autores. Isso tem a ver com o fato de que a centralização não é possível por parte da indústria, segundo a observação que você fez durante a palestra. A indústria da música foi a mais resistente com relação às possibilidades que a Internet oferece. Existe alguma perspectiva de mudança com relação à oferta de conteúdo feita através da Internet por parte dos empresários e dessa indústria cultural?

Eu acho que já existe um consenso, mesmo que não seja explícito, mesmo que as pessoas não falem isso abertamente nas entrevistas da indústria fonográfica tradicional, de que o modelo de negócio deles, o modelo de distribuição e de produção, está com os dias contados. Então, isso vai terminar daqui a pouco, não dá mais certo essa maneira tradicional de produzir musica. Eles vão ter que criar outros mecanismos para sobreviver. Eu acho que todo mundo está tentando inventar uma nova maneira de sobreviver, mesmo comercialmente. Eles já estão de olho. Essa reação inicial de sair prendendo velhinhas e garotinhos que baixam músicas da Internet foi uma reação estúpida. Eles estão vendo que isso provoca muito mais um afastamento do público que eles gostariam de ter. Vão ter que encontrar uma maneira de limpar a própria imagem. Então, eu acho que para a maioria dos grandes executivos de gravadoras, esse modo que a gente está acostumado de produção musical que existiu até agora já até deixou de fazer sentido.

A falta de um autor reconhecido ou “reconhecível” para a produção de conteúdo na Internet está deixando de ser um problema? As pessoas estão tendo mais facilidade em aceitar esse conteúdo como algo de credibilidade, por conta de mecanismos como os que o Wikipedia está desenvolvendo?

Tudo isso é muito novo. Mas, eu acho que estão acontecendo muitas experiências diferentes na maneira de dar credibilidade. Todos esses sites que usam carma, esses conceitos de quanto mais você participa, quanto mais as pessoas votam nas suas colaborações, mais poderoso você vai ficando dentro daquela comunidade, dentro daquele site, isso é um sistema de criação de reputação. Se aquela pessoa tem aqueles votos todos, se aquela pessoa participou tanto e fez comentários que as outras pessoas gostaram, que elas votaram naquilo, isso significa que o conteúdo que aquela pessoa vai criar é mais confiável do que o conteúdo de um novato que está chegando agora no site. A gente está buscando mecanismos de reputação, de criar credibilidade, de fiscalizar as mudanças que são feitas no site, as novidades que são introduzidas porque quando você está criando um site aberto, pode vir qualquer coisa. Há sempre um risco de que as pessoas mudem por brincadeira ou por maldade mesmo, então, eu acho que estão sendo desenvolvidas hoje experiências para lidar com esse novo tipo de realidade, mas ninguém ainda sabe o que vai acontecer.

Pra finalizar então, você poderia falar um pouco a respeito do código do Overmundo, da entrega do código, dessa parte mais técnica que vocês estão liberando?

A gente considera que, agora, início de setembro, a gente está completando o que a gente chama de Overmundo 1.0 , que é o Overmundo que a gente imaginou com todas as ferramentas que seriam necessárias para o site ser completo. Então, agora a gente se sente à vontade para disponibilizar o código para que outras pessoas possam criar seus próprios “overmundos”. Se você quiser fazer um overmundo de política, um overmundo de esportes, da sua universidade ou da sua empresa ou de qualquer outro lugar, você vai poder ter aquele código, pois é tudo desenvolvido sob a licença de software livre. Então, é para que as pessoas possam fazer o que quiserem com aquele código que a gente está disponibilizando. O código é o programa mesmo que faz o Overmundo funcionar, então, está tudo preparado para que as pessoas criem comunidades, blogs, guias, sistemas de votação… tudo isso vai ter lá para que as pessoas possam usar a partir de setembro.

Com Guilherme Carlin.
Publicado originalmente, em vídeo, no site InfomediaTV, em agosto de 2006. Em texto, no Dilúvio.

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