The Truth's For Sale

World of Darkness – Abissal – Capítulo 02 – A Sedução do Suicídio

Posted in RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 09/04/2008

No qual um evento que desafia a compreensão e a lógica eclode, e os personagens realizam um acordo para evitar suas conseqüências inexpugnáveis.

CENA 01 – Encontro matutino

Lucas Mackey obtém, finalmente, a notícia que mais esperava. Nesta manhã receberá alta do Hospital Arkham. Após cinco dias acompanhando sua recuperação, o Dr. John Goldsack faz apenas algumas breves recomendações antes de se despedir.

A noite anterior foi difícil. Avisado por Ripper Moore de que o ataque que sofreu envolvia Jack Williams, chefe de segurança do Hospital Arkham, ele preferiu errar pelo prédio, passando algum tempo em cada andar. Mesmo sem saber quem mais estaria envolvido, ele poderia desnortear um possível perseguidor ainda sem rosto.

Mais tarde, ele encontra Ripper Moore. Mas ao invés de estar acompanhado por Heidrich Müller, o investigar chega com Jason Englund. Müller entrara em contato mais cedo. Rumava para Boston, em uma viagem urgente sobre a qual não deu detalhes.

Após uma apresentação breve, onde o envolvimento de Jason deixa Mackey pouco à vontade, Ripper se afasta. Deseja descobrir mais a respeito de Catherine Call.

Jason, enquanto isso, deixa que suas suspeitas venham à tona. Há semanas buscando por um sinal de Jediah, ele acredita que sua visão envolvendo Mackey seja uma pista. Tentando preservar-se, ele não entra em detalhes, tornando o interlocutor ainda mais resistente à suas perguntas. Mackey, porém, pouco ouve da argumentação. No saguão do Hospital Arkham, além do vidro, olhando para ele, estão os fantasmas que viu no andar do Centro de Tratamento de Doenças Respiratórias e Alérgicas.

Na recepção, Ripper questiona a respeito de Catherine Call. Williams, como ele esperava, não está ali. O detetive tomou a liberdade, ainda na madrugada anterior, de avisar anonimamente a polícia de Arkham a respeito de seu envolvimento no ataque contra Mackey. Facilitando o trabalho deles nessa direção, buscou garantir que chegaria a Call antes dos tiras. Informado de que a médica está de licença desde o dia anterior, devendo retornar apenas na manhã seguinte, vai ao encontro de Jason e Mackey.

CENA 02 – Personalidades

Quando chega à pensão onde esteve hospedado até a noite do ataque, Mackey é abordado pelo senhorio. O homem recorda a passagem do detetive Dale Cooper, e pede como seu hóspede se sente. Farejando a curiosidade que não é motivada pela preocupação genuína, mas pelo interesse e intriga, Mackey decide abandonar o local.

Após largar duas mochilas no porta-malas do sedan de Ripper, os três se dirigem até a casa de Call. Como que pressentindo a aproximação de uma situação complexa, Jason menciona os eventos da noite anterior, no Suffragette. A forma como Ripper se portou, segundo Jason, faz dele alguém muito diferente de um tradicional defensor da Lei e da Justiça:

– Nós estamos no mesmo degrau, Ripper. Eu e você.
– Cale-se. Não somos nem um pouco parecidos – replica o detetive.

Distraído, Mackey pondera sobre como executará sua vingança ao encontrar Catherine Call.

CENA 03 – Preparativos para a invasão

O endereço leva até um bairro residencial de classe média-alta, nos subúrbios de Arkham. Casas parecidas, com jardins gramados e ruas espaçosas onde brincam crianças. Nada poderia ser mais contrastante do que o estado de espírito do trio que se aproxima.

Observado por Mackey e Jason, que permanecem no carro, estacionado à distância, Ripper se dirige à casa de Call. Bate na porta e toca a campainha, sem resposta. Motivado pela tranqüilidade das redondezas, resolve por uma abordagem mais incisiva. Após pular um portão e vencer a fechadura da porta que leva à cozinha, o detetive entra. Em silêncio, averigua se a residência se encontra vazia, hipótese logo descartada. A luz em um aposento vizinho o atrai até uma sala de estar onde, sentada em uma poltrona, uma mulher descansa. A posição, porém, não lhe permite afirmam quem é. Sem ser notado, Ripper deixa a moradia.

No carro, enquanto observam o retorno do detetive, Jason e Mackey encerram uma conversa despretensiosa sobre o mundo das apostas ilegais, onde o primeiro se vangloria de conhecer rodas exclusivas, e o segundo manifesta a indiferença de quem se dá o luxo de viver da habilidade com as cartas.

Diante do relato feito por Ripper, decidem entrar e confrontar a médica, o que leva a mais uma anotação mental de Jason: “de ‘tira’ esse Ripper não tem nada”.

CENA 04 – Os segredos de Catherine Call

Depois de entrarem na residência, os três se aproximam da sala de estar. Vêem uma lareira ainda crepitando, onde inúmeras páginas impressas e anotadas parecem ter sido destruídas. Em uma poltrona, no estertores da morte, está Catherine Call. Seus pulsos sangram em profusão e, no chão, jaz um bisturi.

Ao perceber a presença de Mackey, ela lhe sorri com esforço: “Me desculpe”. Antes de dar o último suspiro, reúne forças para uma frase: “no subsolo… a velha caldeira… é lá que ele está… não o deixe fugir… agora, o fardo é de vocês…”.

Ripper ainda faz menção de prestar-lhe socorro, mas é tarde demais. Imediatamente se dirige ao telefone. Sua intenção de ligar para a polícia, porém, é demovida por Jason e Mackey. A mulher está morta, e a menos que tenham tempo para vasculhar o local, nunca descobrirão porque ela fez o que fez.

Após realizar uma análise breve, que lhe permite confirmar sem sombra de dúvida a hipótese do suicídio, o detetive vasculha o escritório de Call. Recolhe alguns livros com selo da biblioteca da Universidade de Miskatonic e um laptop. Jason, enquanto isso, procura pela caldeira mencionada por ela, no que é frustrado. Apenas um prédio muito antigo contaria com esse tipo de aparato. O Necrotério Municipal e o Hospital Arkham são seus palpites. Mackey, por sua vez, é atraído pelo som de uma respiração pesada que apenas ele pode ouvir. No segundo andar, em um quarto de hóspedes, vê desvanecer a imagem de um dos fantasmas do Hospital Arkham. Com uma voz estrangulada, enquanto olha sobre o ombro do interlocutor, a mulher de lábios cianóticos suspira: “ele está aqui, e pode ver você”.

Mesmo acostumado ao tipo de situação que o seu dom provoca, Mackey se sente desconfortável com a mensagem. Tanto que insiste para que permaneçam mais tempo no local. Deve haver mais a ser descoberto a respeito dos acontecimentos recentes. Ripper e Jason discordam, e os três partes, não sem antes levar algumas páginas parcialmente destruídas que se encontravam próximas à lareira.

As anotações parcialmente carbonizadas de Catherine Call

Incêndio inexplicável mata (destruído) de matemática da Escola Dulbino, (destruído) Basset.
Sua casa foi incendiada e (destruído) sobrou senão o esqueleto da (destruído), totalmente enegrecido pelas chamas da (destruído), transformada em cinzas. Nenhum indício (destruído) foi encontrado, nenhuma explicação foi esclarecida, (destruído) foi criminoso ou não.
Vizinhos (destruído) gritos de nobre senhor, (destruído) sofrendo d’alguma mal-afamada notícia preocupante, ou (destruído) por estar doente. Nada esclarecedor (destruído) acontecimento que choca a cidade até o momento foi desvendado pelas autoridades locais.

Pessoas (destruído) o sr. Basset vinha sofrendo (destruído) estado de estafa mental” nos últimos meses, tendo inclusive (destruído) Dr. Rollebon, em Paris.

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Uma espécie de epidemia (destruído) há algum tempo na província de São Paulo. Os habitantes de várias aldeias (destruído), dizendo-se perseguidos e devorados por vampiros (destruído) de sua respiração durante o sono.

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Trecho de carta enviada a Catherine Call por remetente desconhecido.

…e por isso é que você deve (destruído) para evitar tal obstáculo. Como mencionado em correspondência prévia, sua fonte de alimento (destruído) de pureza e energia. A água que bebe durante a noite, o ar que (destruído) dormem. Os eventos que (destruído) seu local de oficio comprovam tal teoria.

Acreditamos (destruído) a respeito do papel simbólico do órgão principal do sistema excretor. (destruído) combinada ao uso correto das palavras, (destruído). Entretanto, cabe fazer um alerta. (destruído) indesejado desse procedimento, ele pode despertar o apetite por (destruído).

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Trecho de anotação de Catherine Call para elaboração de seu trabalho de doutoramento: “O tratamento contra a pestilência e a receita do bálsamo à luz da medicina científica”.

(destruído) seu significado latino, mare é a palavra do inglês antigo para íncubo, e nightmare (pesadelo) (destruído) o demônio que se senta sobre o peito dos adormecidos, atormentando-os com sonhos. Uma (destruído) de Santo Antônio, escrito por Atanásio em torno de 360 d.C. relaciona, por (destruído) necessidade da oração para o combate às doenças respiratórias, pratica (destruído) anos depois. A documentação (destruído) efeitos da apnéia do sono (destruído) é mais uma manifestação da prática de curandeirismo, atribuindo a entidades sobrenaturais a (destruído) mundanas.

Doenças mundanas? Deus! (destruído) peçam para explicar (destruído) enfermidade sobrenatural!!! Certamente Freckmann tem (destruído) para isso.

CENA 05 – De volta ao Hospital Arkham

Se existe um prédio nesta cidade a que Catherine Call teria fácil acesso, é o Hospital Arkham. Com suas fundações erguidas há mais de trezentos anos, a casa de saúde seria o local perfeito para que a médica desse vazão aos seus demônios.

Sem dificuldade para driblar a pífia segurança, Ripper e Mackey se dirigem ao subsolo. Após alguns lances de escada, atingem a região mais subterrânea da construção, onde as paredes descascadas e o chão de pedra exibem a sujeira acumulada ao longo de décadas. A única porta trancada que encontram pouco pode fazer para detê-los, já que Ripper não tem dificuldades para vencer o cadeado ali instalado. A peça, nova, chama a atenção de ambos.

Ao adentrar o grande salão das caldeiras, os dois vêem um espaço há muito sem função, onde velhos equipamentos são depositados à espera do descarte definitivo. Em meio à poeira, iluminados por lâmpadas fracas demais, vêem um pedaço de carne circundado por diversos símbolos arcanos. Mackey sente um frio de ódio e repulsa ao saber que aquilo é o rim que lhe foi tirado.

Cansado de esperar no carro, Jason chega neste momento, bem a tempo de provocar um susto terrível nos companheiros, que já se deixavam influenciar pelo ambiente lúgubre.

Analisando o local, descobrem pegadas na poeira, produzidas por um calçado feminino em ocasiões distintas. Além disso, atestam que, pelo estado de conservação, o órgão está sem qualquer tipo de conservação artificial há cerca de uma semana, o que coincide com o momento em que Mackey foi atacado. Quanto aos símbolos ao seu redor, apenas conseguem afirmar que se tratam de sinais utilizados com propósitos diversos, contraditórios até.

Sem mais o que fazer, deixam a velha caldeira, mas não sem antes Mackey improvisar uma forma de levar o rim consigo.

CENA 06 – Livros e jornais

A parada seguinte é na biblioteca da Universidade de Miskatonic. Sem vínculos com a comunidade, nenhum deles pode retirar livros, mas nada os impede de buscar referências aos assuntos assombrosos com os quais travaram contato nesse dia. Eis as informações que se revelam durante a pesquisa:

– Lendas diversas falam de ataques noturnos realizados por criaturas chamadas Íncubos e Súcubos. São espíritos masculinos e femininos que se alimentam da vítima através de uma relação sexual durante o sono.

– A lenda foi uma das primeiras explicações medievais para o orgasmo noturno. Relatos recentes atribuem essa fantasia a uma tentativa da vítima de crime sexual no sentido de minimizar o seu trauma.

– Estudos relacionam as lendas dos Súcubos e Íncubos à Paralisia do Sono, um processo natural que visa impedir que as pessoas se mexam enquanto sonham. Distúrbios desse fenômeno podem ser causados por má alimentação, maus hábitos de sono e estresse.

– Algumas das fontes de Call se revelam. Em um dos livros consultados há uma anotação em uma das margens – “eu sei que isso é a mais pura e aterradora verdade”. O livro de medicina medieval compila relatos de problemas respiratórios causados por “demônios”.

Além disso, descobrem trechos inteiros de algumas das fontes parcialmente carbonizadas na lareira de Catherine Call:

Nota Publicada no jornal francês Le Figaro, em 14 de setembro de 1889.

Incêndio inexplicável mata professor de matemática da Escola Dulbino, Jean-Claude Basset.
Sua casa foi incendiada e nada sobrou senão o esqueleto da estrutura, totalmente enegrecido pelas chamas da madrugada, transformada em cinzas. Nenhum indício de início de fogo foi encontrado, nenhuma explicação foi esclarecida, muito menos se foi criminoso ou não.

Vizinhos disseram escutar gritos de nobre senhor, como se estivesse sofrendo d’alguma mal-afamada notícia preocupante, ou até mesmo desesperado por estar doente. Nada esclarecedor no que concerne ao acontecimento que choca a cidade até o momento foi desvendado pelas autoridades locais.

Pessoas próximas afirmaram que o sr. Basset vinha sofrendo de “um profundo estado de estafa mental” nos últimos meses, tendo inclusive passado alguns dias na casa de repouso do Dr. Rollebon, em Paris.

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Fragmento de notícia, publicada no jornal brasileiro Província de S. Paulo, em 21 de novembro de 1888.

Uma espécie de epidemia de loucura parece alastrar-se há algum tempo na província de São Paulo. Os habitantes de várias aldeias fugiram, abandonando suas terras e suas casas, dizendo-se perseguidos e devorados por vampiros invisíveis que alimentam de sua respiração durante o sono.

Distraído da pesquisa – livros pouco têm a lhe ensinar -, Jason passa os olhos por livros e folheia alguns jornais. Sua atenção é despertada pela manchete do vespertino Arkham Observer:

Autor de ataque misterioso se entrega

O texto dá conta da prisão de Jack William após este ter se confessado o autor do ataque contra Lucas Mackey, que resultou no roubo de um de seus rins.

Frustrado pela indiferença do detetive Cooper, que prometera avisar assim que qualquer novidade surgisse, ele liga. Ouve do oficial que o caso não foi concluído. A polícia de Arkham duvida que Williams tenha a capacidade para executar a complexa extração de um rim. Infelizmente, pouco após assinar a confissão, o segurança do Hospital Arkham entrou em um estado de catatonia que impediu novas averiguações. Ele acabara de ser transferido para o Hospital Psiquiátrico Bishopgate, em Arkham. A segunda ligação anônima feita por Ripper, dessa vez sugerindo a ligação de Catherine Call com o ataque, não é mencionada.

CENA 07 – Fatos noturnos

Ao final do dia, Jason resolve dar um voto de confiança aos seus companheiros, revelando o endereço que está “ocupando”. Com um abastecimento limitado de luz e água, além dos odores bolorentos típicos de uma construção antiga há muito desabitada, a mansão nada conservou da ostentação que possuiu no passado.

Sob a iluminação improvisada, Ripper, Jason e Mackey têm uma conversa a respeito dos eventos recentes. Para Ripper, muito do que aconteceu tem explicação no auto-sugestionamento. A crença, por mais distorcida que venha a ser, seria a chave para compreender o comportamento de Call em relação ao sobrenatural. Jason e Mackey, entretanto, não se harmonizam com esse ceticismo. Suas capacidades únicas não permitem ignorar a possibilidade de que engrenagens ocultas estão em movimento. Reservadamente, enquanto Ripper verifica o laptop de Call, eles conversam sobre isso. Jason fala mais a respeito de Jediah, assunto que enerva Mackey. O jogador desconhece tal pessoa, e se irrita com a insistência do outro sobre ele ser um canal de comunicação ignorante de sua função.

Após a despedida do detetive, Jason se recolhe, e Mackey se encarrega do extravagante ritual de enterrar no pátio o próprio rim.

CENA 08 – Prenúncio ou Ataque?

Durante a madrugada, enquanto analisa a arma roubada de Jack Williams, Jason ouve passos no saguão da mansão. Engatilhando a Glock, se dirige ao recinto, apenas para ouvir os sons no corredor adiante. Percorrendo a distância com cuidado, percebe que se encaminha até o quarto onde Mackey se instalou.

Abrindo a porta com cuidado, vê uma figura sombria parada junto à cama de seu hóspede. Com a mão sobre a testa, ele ou ela respira ruidosamente. De a arma em punho, Jason grita uma ordem, obtendo como resposta apenas um olhar desinteressado. O rosto de Catherine Call olha para ele, mas seus traços são horrendos, distorcidos pela ausência de proporção. Em suas mãos, carrega um bisturi, encharcado pelo sangue dos pulsos cortados.

Mackey, que parece vítima de um sono febril, não atende aos chamados. Quando Jason se aproxima mais, aquilo desaparece. Nesse momento, Mackey desperta, vendo seu hospedeiro ao seu lado com uma arma na mão. Sem conseguir explicar o que aconteceu, nem o que está fazendo ali, ele deixa o quarto. Tomado por uma sensação de fadiga, mas profundamente abalado por um sentimento desconhecido, Mackey não consegue dormir. Jason, incapaz de saber se teve uma premonição ou testemunhou algum tipo de ataque, tem como única companhia pelo resto daquela noite a incerteza.

CENA 09 – No que acredita Emmet Freckmann

Depois de sucessivas e frustradas tentativas de encontrar o Dr. Emmet Freckmann em seu consultório, Ripper, Jason e Mackey decidem procurá-lo no Hospital Psiquiátrico Bishopgate. Opressiva, a aura da instituição de saúde mental afeta a todos – Mackey em especial. Ele se encontra vítima de uma espécie de debilidade espiritual que é incapaz de explicar, mas cuja existência apenas a materialidade poderia tornar ainda mais presente.

Na recepção, um funcionário tenta desencorajar a visita ao Dr. Freckmann. Ele acabara de receber uma notícia pessoal que o abalou, e pediu para não ser incomodado. Indiferentes, os três homens se dirigem ao escritório do psiquiatra.

O encontram sozinho, com um envelope à sua frente, e a expressão de profundo abatimento. Freckmann afirma que acabara de ser informado da morte de uma amiga, e que gostaria de ficar sozinho. Ignorando o pedido, Mackey despeja perguntas, que combinadas ao abalo emocional e a sutil ameaça que a simples presença de Jason evoca, faz com que a qualquer resistência seja arruinada.

Sim, ele conhecia Catherine Call. Eram amigos, e ele orientava seu doutoramento na Universidade de Miskatonic a respeito de doenças consideradas sobrenaturais analisadas sob a ótica científica moderna. Sim, era verdade que ele tinha interesse no assunto, mas sua posição era permanentemente crítica. Tanto que quando percebeu que Call parecia ter o seu ceticismo abalado, ofereceu ajuda. Freckmann demonstra claramente o ressentimento e a culpa próprios de alguém que sente que poderia ter evitado a morte trágica de uma amiga. Call estava pressionada pelo trabalho e pelos estudos, e de alguma forma suas frustrações desembocaram em uma espécie de fantasia que encontrava paralelo com alguns dos casos que estudava.

O material que ela confiou a Freckamann para análise não deixariam dúvidas a respeito de sua condição de estresse profundo e, possivelmente, um quadro inicial de esquizofrenia:

Trechos dos diários de Jean-Claude Basset, cidadão francês de Biessard, com apontamentos referentes ao ano de 1889 – Sob os cuidados do Dr. Emmet Freckmann:

16 de maio – Estou doente, decididamente!

18 de maio – Acabo de consultar o meu médico.

2 de junho – Acometeu-me de súbito um arrepio, não um arrepio de frio, mas um estranho arrepio de angústia.

Apressei o passo, inquieto de estar sozinho naquele bosque, amedrontado sem razão, estupidamente, pela solidão profunda. De súbito me pareceu que estava sendo seguido, que andavam nos meus calcanhares, bem junto de mim, quase a tocar-me.

5 de julho – Terei perdido a razão? O que se passou na última noite é de tal modo estranho, que a minha cabeça fica perdida quando recordo!

Como o faço agora cada noite, eu tinha fechado a minha porta a chave; tendo sede, bebi meio copo d’água, e notei por acaso que a minha jarra estava cheia até o gargalo de cristal.

Deitei-me em seguida e caí num dos meus terríveis sonos.

Tendo enfim recuperado a razão, senti sede de novo; Ergui-a jarra, inclinado-a sobre o meu copo: nada escorreu. – Estava vazia! Tinham então bebido aquela água? Quem? Eu?

6 de julho – Enlouqueço. Beberam outra vez toda a minha água esta noite: ou antes, eu a bebi!

Mas fui eu? Fui eu? Quem? Quem seria? Oh! Meu Deus! Eu enlouqueço! Quem me salvará?

6 de agosto – Vi, distintamente, bem perto de mim, dobrar-se a haste de uma das rosas, como se mão invisível o torcesse, e depois o vi quebrar-se, como se a mão o tivesse colhido! E a flor ergueu-se no ar.

Então fui tomado de uma cólera furiosa contra mim mesmo; pois não é lícito a um homem sensato e sério sofrer semelhantes alucinações.

Mas seria mesmo alucinação?

7 de agosto – Indago comigo mesmo se não estarei louco.
Sem dúvida eu me julgaria louco, absolutamente louco, se não estivesse consciente, se não conhecesse perfeitamente o meu estado, se não o sondasse, analisando-o com uma completa lucidez. Quando muito, eu seria, afinal, um alucinado raciocinante.

8 de agosto – Passei ontem uma terrível noite. Ele não se manifesta mais, mas eu o sinto perto de mim, espiando-me, olhando-me, penetrando-me, dominando-me.

Dormi, no entanto.

14 de agosto – Estou perdido! Alguém possui a minha alma e a governa! Alguém ordena todos os meus atos, todos os meus gestos, todos os meus pensamentos. Eu nada mais sou em mim, nada mais sou que um espectador, escravizado, e aterrorizado de todas as coisas que eu faço.

17 de agosto – Nada vi a princípio, depois, de repente, pareceu-me que uma página do livro acabara de virar-se sozinha. Uns quatro minutos depois, eu vi sim, eu vi com os meus próprios olhos, uma outra página erguer-se e pousar sobre a precedente, como se um dedo a tivesse folheado.

19 de agosto – Mas que tenho? É ele, o Horla, que me habita, que me faz pensar estas loucuras! Ele está em mim, ele se torna a minha alma; eu o matarei!

Eu o matarei.

21 de agosto – Durante muito tempo julgaram-me louco. Hoje duvidam. Dentro de algum tempo, todos saberão que tenho um espírito tão são, lúcido e perspicaz quanto o dos senhores, infelizmente para mim, para os senhores e para toda a humanidade.

25 de agosto – Tudo acabado. Enfim… Mas terá ele morrido?

Não… não… sem dúvida nenhuma, sem dúvida nenhuma… ele não está morto… Então… então… vai ser preciso agora que eu me mate!

—-

A respeito de Jack Williams, segundo o Arkham Observer, colocado aos cuidado dos Dr. Freckman, não se pode fazer nada. Está em profundo estado de catatonia, completamente incomunicável. Ripper, Mackey e Jason não foram os primeiros a desejar vê-lo. Archibald Holmes esteve no Bishopgate mais cedo, com o mesmo propósito, também mal-sucedido.

CENA 10 – Encontro com Archibald Holmes

Em uma mansão nos arredores de Arkham, em companhia de alguns poucos empregados e cercado por objetos que revelam seu diletantismo, vive Archibald Holmes. Amparado por um auxiliar e uma bengala, o ancião revela em cada movimento a fragilidade de sua saúde. A mente por trás dos olhos cansados, porém, parece surpreendentemente alerta.

Os três visitantes revelam como sua investigação paralela chegou ao Dr. Emmet Freckmann, e que foi ele quem lhes informou a respeito da curiosidade do Sr. Holmes pelo estranho caso de Jack Williams. Aprofundando a conversa, compartilham algumas de suas descobertas, inclusive a aterradora cena no porão do Hospital Arkham.

Analisando uma fotografia tirada por Ripper, Holmes lhes diz que, seja lá quem tenha produzido aquela simbologia, o fez sob orientações contraditórias ou incompletas, agregando conhecimento esparso de fontes diversas. É impossível, portanto, discernir a real intenção do autor.

Ainda que o assunto não venha à tona com clareza, Holmes parece capacitado a sentir as estranhas vibrações que se abatem sobre Mackey. Talvez por sua sensibilidade igualmente peculiar, ele não estranha as perguntas do ancião sobre seu estado físico e mental.

Holmes afirma que o “algo” que levou Call ao suicídio pode estar tentando fazer o mesmo com Mackey. Trata-se de uma espécie de manifestação espiritual do desespero. Sim, ele pode ajudar. Conhece os meios. Em troca, afirma que pedirá, em breve, um favor. Algo que um velho como ele não tem condições de fazer. Ripper concorda, ainda que em seu íntimo tome Holmes por um excêntrico. Jason nada diz, mas especula em silêncio. Quem sabe Holmes, na ausência de Jediah, seja a pessoa que detém as respostas que ele busca? Mackey enxerga a solução dos problemas que não é capaz de resolver sozinho.

Antes que partam, um encontro é combinado para aquela noite. Para que o rito planejado surta efeito, porém, cada um deles deverá evocar o âmago de seu próprio desespero. Se o que está acorrentado a Mackey é mesmo uma manifestação desse sentimento, é necessário que a entidade agressora seja forçada a se manifestar por meio da ingestão bruta de sua fonte de alimento.

“Alguns homens encontram o Desespero quando olha no espelho, ou no momento em que seus entes são ameaçados. Outros, quando aquilo que acreditam ser a verdade é vítima de perjúrio. Há os que se desesperam diante das lacunas em sua própria existência, e os que não suportam a perda de algo, ou a derrota. Eu encontro com Desespero quando revejo momentos do meu passado. A pergunta é, quanto Desespero vocês estão dispostos a tolerar até que essa criatura se manifeste e possa ser combatida?”

CENA 11 – A Cerimônia

Na tarde que precede a cerimônia que será conduzida por Archibald Holmes, Ripper, Mackey e Jason decidem conferir o endereço que lhes foi dado. A casa, em uma das vizinhanças mais antigas da cidade, parece abandonada.

À sua maneira, cada um deles busca evocar em si o sentimento de desespero. Enquanto Mackey recorda dos fatos que viveu recentemente, Jason se concentra nas falhas de sua busca e nas lacunas de seu passado. Ripper, por sua vez, pensa nas duas filhas de seu casamento fracassado.

À noite, encontram-se todos no local combinado. Holmes explica que aquela casa um dia pertenceu a Crawford Tillinghast. Ele foi um cientista do início do século XX cujas descobertas foram profundamente perturbadoras. Tillinghast desenvolveu uma máquina que, acreditava, permitiria ver o mundo além dos sentidos humanos normais. Ele acabou morrendo de apoplexia, um coma súbito causado pela efusão de sangue no cérebro ou medula espinhal. Na noite em que isso ocorreu, ele haveria de demonstrar o funcionamento da máquina a um amigo, Arnold Hathorne.

Tillinghast foi encontrado morto, e Hathorne, desmaiado, com uma arma na mão. Esse último atirou na máquina antes de perder os sentidos. O equipamento foi recolhido, e acabou desaparecendo anos mais tarde. Hathorne disse que foi hipnotizado de alguma forma. Tillinghast ainda seria difamado depois de morto, acusado do assassinato de três de seus empregados, ainda que os cadáveres jamais tenham sido encontrados.

No sótão onde o ocorrido se deu, Holmes pretende executar o ritual. O ancião acredita que, de alguma forma, aquele evento quase cem anos no passado tornou o local propício para a comunicação espiritual. A cada um dos presentes ele entrega um tablete branco de mescalina. Em seguida, acende dois lampiões e inicia a entoação de um monótono cântico. Mesmo desconfiados, Jason, Mackey e Ripper seguem a instrução para acompanhar as palavras. Na primeira meia-hora, nada acontece. Depois, quando o alucinógeno começa a fazer efeito, a escuridão parece se adensar. Em um dos cantos, um vulto de aparência idêntica a Mackey, mas com os pulsos cortados e sangrando, é visto por todos. Com a mão livre, o estranho toca a cabeça de seu duplo. Na mão livre, leva um bisturi.

A visão atemorizante faz com que Jason perca a melodia, enfraquecendo o ritual. Ripper, entretanto, mantém uma concentração pétrea, o que contribui para que Holmes consiga exercer controle sobre a entidade, ainda que de forma vacilante.

Enquanto isso, Mackey recebe o bisturi, e em sua batalha individual, luta contra o impulso de cortar os próprios pulsos. O aço cirúrgico chega a penetrar sua pele, mas não o bastante para machucá-lo seriamente. Lentamente, porém, a vontade dos quatro homens supera a da entidade, que desvanece.

Enquanto o ritual se realizava, todos perceberam que Jason também estava vinculado a alguma força externa, mas cuja natureza, abstrata ou alienígena, não pôde ser compreendida. E o bisturi que a entidade repassou para Mackey permanece após sua dissipação.

Extenuados, percebendo que já amanhece, os quatro deixam a casa de Crawford Tillinghast. Holmes pede que o procurem assim que se sentirem capazes e desejosos disso.

Resumo de Abissal, Crônica que tem como referência o cenário e conjunto de regras apresentados no livro O Mundo das Trevas.
Narrador: Carlos Hentges
Jason Englund / Luiz
Lucas Mackey / Lucas
Ripper Moore / Filipe

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