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Porto Alegre boêmia

Posted in Jornalismo by Carlos Hentges on 07/12/2007

359 Online viaja pela noite da capital gaúcha, redescobre Lupicínio e acompanha o Clube do Choro de Porto Alegre.

O Clube do Choro de Porto Alegre começa a tocar por volta das 21h. Todas as quintas-feiras eles se apresentam no Clube Ypiranga. Isso ocorre há três anos e “não tem hora para terminar”. Seja fazendo apresentações instrumentais, seja contando com cantores – eles preferem ser chamados de crooners – a certeza é de casa cheia.

Na platéia, senhores e senhoras de todas as idades, conversando alto em meio a um jantar que aguarda o melhor da festa. O ambiente é agradável e tranqüilo, mas a excitação de alguns membros da platéia denuncia a expectativa em torno da apresentação que em breve começará.

Não demora muito até que os músicos se coloquem para iniciar a festa. Camisa pólo azul. Instrumento de trabalho nas mãos. Cerveja e vinho ao alcance da sede. Luis Bastos Fonseca, brandindo o cavaquinho, chega a fechar os olhos em alguns momentos. Conhecido como Cebolinha, devido ao especial apreço pela famosa iguaria, ele é um dos fundadores do Clube do Choro. E um amante da noite. “Sou um completo boêmio. Faço parte dela há mais de trinta anos. Não abro mão desse sentimento pela música e pelas pessoas que integram a noite”.

É um sentimento compreensível quando se percebe as pessoas levantando e sambando ao som do melhor da MPB. Mesas, cadeiras e todo o resto, nada é obstáculo no caminho da platéia ávida. Depois de cantar (croonear???), Vanderlei Mello vai em busca dos amigos e da “loura gelada”. Surpreendido pelo pedido de entrevista, avisa. “É Vanderlei, assim mesmo, sem “w” e sem “y”, bem brasileiro mesmo”.

Vanderlei sabe exatamente porque se apresenta até hoje. “A noite é um vício, o pior e melhor deles. Eu me identifiquei com ela cantando e tocando. Ela nos faz viver. A noite não tem os preconceitos do dia-a-dia. Nem profissionais e nem sociais. A noite não tem cor ou idade. Ao se apresentar ou aplaudir, você já faz parte dela”.

É exatamente essa noite que se vê no Ypiranga. Como numa reunião de velhos amigos, os músicos chamam um ao outro para o centro de um palco que não há, pois estão todos no mesmo nível. Um desses convites é feito a Mario Terra. Satisfeitíssimo por participar da apresentação, revela. “A identificação com o Clube do Choro ocorre pela aprendizagem. Esse pessoal tem muito a ensinar e não tem o devido reconhecimento. No Rio de Janeiro o chorinho é quase uma religião. Precisamos ter mais respeito com esse pessoal, que executa o choro, que é a forma mais elaborada de fazer MPB”.

MPB, choro, samba-canção; as horas passam e todas essas estrelas têm o devido reconhecimento. Nesse ambiente festivo, Mário relata a preocupação com os jovens da periferia. “Temos um projeto de levar essa música até onde ela não chega. Oficinas de música e dança ministradas nos subúrbios de Viamão e Porto Alegre tem objetivo claro. “Levamos um espetáculo para a periferia, sem patrocínio. Queremos minimizar a questão da marginalidade”.

A noite termina da forma que todos sabiam que aconteceria logo no momento em que ela começou. Palmas. Aplausos. Ovação. Chame como quiser. Quinta-feira eles estão de volta.

Lupicínio Rodrigues, o boêmio

Em entrevista para O Pasquim, em 1973 – uma das últimas que concedeu – Lupicínio Rodrigues saiu com a seguinte declaração. “Eu sou boêmio. O meu negócio é estar assim como estou agora, com o violão do lado, dentro de um bar, com vocês, e tomando as minhas biritas e cantando”.

Revelando parte de sua personalidade e contribuindo para o estabelecimento de um mito, Lupicínio viria a falecer pouco tempo depois, em agosto de 1974. É considerado o criador da dor-de-cotovelo. Por isso se entende não a inveja, mas a situação ingrata daquele cidadão que, arrasado pelo amor, planta seus cotovelos em uma mesa de bar diante das tais “biritas” e percebe que só destilando sua tristeza poderá superá-la.

Antes das mulheres, da música e da noite – nenhuma delas tardaria muito a chegar – Lupicínio Rodrigues viveu uma infância humilde no bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre, cidade pela qual declarou paixão várias vezes. Foi criador precoce, tendo já aos 12 anos composto para blocos carnavalescos da capital gaúcha. “Eu fazia brinquedo”. Dessa época também é a paixão pelo Grêmio, clube para o qual comporia o hino em 1953, o que lhe garantiu um lugar cativo entre seus mais famosos torcedores.

Consta em livros sobre Lupicínio, que seu pai teria adulterado seus registros de nascimento para que ele pudesse ingressar no exército aos quinze anos. Segundo o patriarca, seria o único modo de livrá-lo da noite e suas tentações. O fato mais relevante da carreira militar precoce foi a formação de uma banda com outros soldados, na qual imitava o cantor Mário Reis.

Em 1938 o samba Se Acaso Você Chegasse foi gravado pelo então iniciante Ciro Monteiro. O sucesso nacional concretizou a profecia feita por Noel Rosa quatro anos antes, quando conhecera Lupicínio Rodrigues em uma passagem por Porto Alegre. “Esse menino vai longe”. O gaúcho tinha dezessete anos na época. Outros sucessos foram cantados por diferentes medalhões da MPB ao longo dos anos, ainda que Lupicínio tenha afirmado várias vezes que Jamelão foi o seu melhor intérprete.

Lupicínio Rodrigues foi um dos primeiros, se não o primeiro, caso de notoriedade nacional fora do eixo Rio-São Paulo. Além do seu inegável talento, o crítico Augusto Sérgio atribui a uma particularidade de suas canções esse reconhecimento. “Por toda a década de 40 e 50, remando contra a maré favorável às espécies mais animadas de samba, Lupicínio impôs sua soberania”. É possível que a proximidade com terras argentinas tenha impregnado o compositor com a beleza trágica do tango, estilo do qual era admirador confesso.

Mas não foi apenas por meio de letras como a de Esse Moços, Pobres Moços, que o nome de Lupicínio Rodrigues tornou-se conhecido:

E vão ao inferno, a procura de luz
Eu também tive, nos meus belos dias
Esta mania que muito me custou
Pois só as mágoas que eu trago hoje em dia
E estas rugas que o amor me deixou.

Foi também proprietário de vários bares, que abria e fechava com grande freqüência, parecendo sempre buscar apenas um lugar para encontrar os grandes amigos feitos na noite. Ente seus investimentos estiveram o Jardim da Saudade, Batelão e Clube dos Cozinheiros. Para esclarecer o nome desse último, basta observar outra de suas frases publicadas em O Pasquim. “Sou cozinheiro. Tenho um restaurante, e tem o bar. Eu faço música pra divertir, não faço profissão da música”. E completa, despretensioso. “Porque eu não sou cozinheiro de dizer que eu faço comidas difíceis, grandes pratos. Mas essa comida popular, essa comida de todo dia, eu acho que faço bem. Eu acho que cozinho melhor do que componho, do que canto”.

Lupicínio compôs mais de cem canções ao longo de sua carreira, todas elas nascidas de suas experiências ou da observação da vida de pessoas próximas. Partiu cedo. Cabe a Lupicínio Rodrigues Filho aquela que talvez seja a definição mais perfeita para explicar o sucesso do pai. “Essa música é um retrato de quem ouve e de quem canta”.

Lupicínio Rodrigues Filho tem óbvias e profundas ligações com o passado musical do país. Fundador do Se Acaso Você Chegasse em 1999, a casa noturna é uma homenagem ao grande compositor que foi seu pai. Advogado e compositor, ele conta a 359 um pouco sobre a vida de Lupicínio pai, e revela as dificuldades sofridas para manter viva a memória musical do Rio Grande do Sul e, sem medo de errar, do Brasil.

359: No salão do Se Acaso Você Chegasse está um banner com a imagem de Lupicínio Rodrigues. Há o símbolo da Prefeitura Municipal nele. Foi uma espécie de doação?
Lupicínio Rodrigues Filho: Eu fiz um show há bastante tempo e isso ficou atirado em um canto. Eu pedi então para que me dessem. Foi uma doação da Prefeitura. Mas na verdade, estavam tratando como um lixo que não sabiam o que fazer. É horrível de se dizer, mas é verdade. A Prefeitura dizer isso de um homem com a gigantesca obra de meu pai. Não me refiro a uma administração ou a um partido especificamente, mas do “ser” Prefeitura Municipal de Porto Alegre.

359: No dia dezesseis de setembro de 2004 serão comemorados os noventa anos do nascimento de Lupicínio Rodrigues. Existe algum tipo de comemoração prevista para a data?
Lupicínio Filho: Eu estive em Brasília com o Ministro da Cultura, Gilberto Gil, para ver se conseguimos fazer alguma coisa nessa data. Acho que são movimentos que devem ser elaborados, mas sozinho não consigo fazer mais nada, porque os custos estão cada vez mais altos. Sem colaboração dos órgãos públicos eu vou cantar parabéns para ele sozinho.

359: Como o senhor enxerga a contribuição de Lupicínio para o estabelecimento de uma identidade cultural gaúcha?
Lupicínio Filho: Acho que antes de nós gaúchos chegarmos a um lugar, chega a nossa cultura. Tem muito gaúcho que não conhece o Rio de Janeiro, Brasília; e a musicalidade do pai chegou antes dele e antes de todo mundo através de uma obra muito forte. Quando a obra chega em um local de origens tão diversas, como é o caso do povo carioca – já que nos somos predominantemente alemães, italianos e portugueses – é sinal que se estabeleceu um patamar sociológico. A obra de Lupicínio Rodrigues chegou ao centro do país muito antes do homem Lupicínio. Através dele, naquela época, o Rio Grande do Sul chegou muito mais longe do que jamais estivera. Chegou a obra, o compositor e então o homem. Isso é motivo de florescência muito grande, de reconhecimento. Estabelecem-se novos patamares para cultura.

359: Existe todo um imaginário em torno da imagem de boêmio de Lupicínio Rodrigues. Como filho, qual a lembrança mais forte que tem dele?
Lupicínio Filho: A imagem mais forte que tenho do meu pai é a de chegar de mãos dadas com ele na escola, no Colégio Cruzeiro do Sul. Não tem nada a ver com boemia. Em minha casa isso existia apenas como mito, pois lá dentro nunca percebi as coisas dessa forma. Até porque em 1936 ele fundou aqui no Rio Grande do Sul a Sociedade Brasileira de Autores, Compositores e Escritores de Músicas (SBACEM), que era um escritório de representação de direitos autorais, além de ter uma editora musical também. Para isso ele tinha que trabalhar em turno integral. Ele nunca saia de casa aos domingos. Aos sábados ele sempre estava em casa. E eu acho que um boêmio casado durante trinta anos deve ser de um tipo bem diverso. Sempre tivemos uma relação familiar bem constituída. Minha mãe jamais bateria palmas se ele chegasse às 5h em casa, muito pelo contrário. Daria uma baita bronca nele.

359: Vários livros foram publicados sobre a vida e a obra de seu pai, sendo você autor de um deles. Existe algum novo projeto nesse sentido?
Lupicínio Filho: A obra do pai não foi estudada e lapidada da forma que tem que ser feito. Principalmente pela desvalorização da sua obra pelos gaúchos. Lupicínio foi do popular ao erudito, passando pelo gauchesco e hinos de clube. É essa genialidade que nossa terra não foi capaz de investigar para realizar o tombamento deste grande carvalho que é o pai. Acho que faltam entidades capazes de realizar isso, semelhante ao que acontece nos Estados Unidos, com suas grandes personalidades.

Publicicado originalmente na revista eletrônica 359online, em dezembro de 2003.

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Uma resposta

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  1. Samuel Correia de Aragão said, on 22/01/2008 at 11:56

    Sou o atual presidente do Clube do Choro da Paraíba e, confesso é muito dificíl se falar de um “mito” como Lupicínio Rodrigues. Nasci em 1934, vinte anos depois dele e, minha juventude foi ouvindo “Nervos de Aço” e “Esses Moços” cantados por Francisco Alves de quem eu era fã.

    Hoje no Clube do Choro da Paraíba, que funciona todos os sábados a partir do meio dia até às 16h00 na sede do Sindicato dos Bancários na Av. Beira-Rio, e de 17h00 às 21h00 em sua sede à Rua D.Pedro II, 832 – centro – João Pessoa. Fico feliz ao ouvir Chico Bezerra, Regivaldo e Barroso interpretarem com maestria várias músicas do grande Lupicínio Rodrigues.

    Lupicínio, na verdade foi o maior dos maiores compositores de música romantica. Suas canções entra fundo em nossa alma, alegra o coração e, revigora nosso espiírito.

    Desejo manter contatos com vocês para realisarmos um trabalho a nível nacional sobre a integração de todos os Clubes e Rodas de Choro do país e, divulgarmos mais o nosso chorinho
    Um abraço bem forte de:
    Samuel Correia de Aragão.
    Advogado, trabalhando na Procuradoria Geral do Estado. Av. Epitácio Pessoa, 1457 B. dos Estados CEP 58030-001 – João Pessoa Paraíba.


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