A Vigília – Roteiro 2.2 – Incursão
1 – Ext. – Ermos – Noite
Alice levanta-se e olha ao redor. Busca qualquer indício da presença de Davi. Os faróis do carro estão ligados; projetam um círculo de luz ao redor de Alice. Ela vasculha as imediações. A arma ainda manchada de sangue pende como um peso em sua mão. Ela caminha até a margem da luz, onde então a escuridão se torna inexpugnável. Lança olhares ao redor. Segura a arma com ambas as mãos, desajeitada. Ensaia um passo hesitante e não avança.
Correndo em direção à fonte de luz. Alice se detém por um instante, e então se aproxima do próprio carro. Tem a arma ainda respingada de sangue em uma das mãos. Com a outra, abre o porta-malas e procura por uma lanterna. Ao encontrá-la, a testa rapidamente.
Alice se dirige até o carro de Davi. Abre a porta e senta-se no banco do motorista. Olha a arma em sua mão, suja de sangue. Ela segura o volante. Permanece um instante em silêncio, encarando o prédio iluminado pelos faróis. Ela está suada e abatida. Recobrando-se, percebe que as chaves permanecem na ignição. As toma. Faz o mesmo com o celular deixado sobre o banco do passageiro.
Após desligar os faróis do veículo e trancá-lo, podemos vê-la, à distância, com a única fonte de luz do ambiente nas mãos, rumando na direção do prédio.
2 – Int. – Prédio Abandonado – Noite
Com a lanterna em mãos, Alice adentra o prédio. A quase ausência de luz cria um cenário claustrofóbico e labiríntico. Por meio da pouca luz fornecida pela lanterna podemos acompanhá-la vasculhando o local vagarosamente.
Alice vaga por corredores e salas vazias. A luz vai revelando um abandono de longa data.
3 – Int. – Prédio Abandonado – Noite
Alice atravessa o marco de uma porta que leva até um grande salão. Ali, algo chama a sua atenção. A luz da lanterna revela uma pequena câmera de vídeo digital sobre um tripé. Ela está posicionada em um canto da sala, de forma a capturar a imagem mais abrangente possível.
Alice se aproxima. A luz revela uma fina camada de poeira sobre o equipamento. Apesar disso, não resta dúvidas de que ele seja novo. Nos arredores do tripé podem-se distinguir inúmeras pegadas. Seguindo fios com a luz, ela vê o gabinete de um computador pessoal ligado à câmera. Baterias estão ao lado da máquina, alimentando-a. Alice coloca a lanterna no chão para examinar o equipamento.
Uma voz soa atrás dela.
DAVI
Alice!
Podemos ver a silhueta de Davi, parado junto ao marco da porta. A luz da câmera ilumina-o dos pés até metade do tronco. Sua aparência é a mesma do momento do suicídio, mas sangue mancha a sua camisa.
ALICE
Davi! Você está bem?
Alice se adianta na direção da lanterna.
DAVI
Não faça isso! Deixe onde está.
ALICE
O que está acontecendo? Eu vim atrás de você.
DAVI
Eu sei. Quero mostrar algo. Desça comigo.
Davi afasta-se e desaparece na escuridão. Alice pega a lanterna caída no chão e vai até a porta.
ALICE
GRITANDO. Davi?
4 – Int. – Fundações do Prédio – Noite
Alice desce lentamente um longo lance de escadas. A lanterna revela uma ala especialmente degradada, nas fundações do prédio. A escuridão é intensa. Ratos são afugentados pela luz.
Conforme Alice se aproxima do fim da escadaria, cresce o som de murmúrios que ouvimos no primeiro capítulo. Alice reage vasculhando o ambiente com sua lanterna.
ALICE
Davi? Onde você está?
A vozes aumentam. O som vai ficando ensurdecedor. Alice recua até uma parede. Ela larga a lanterna e leva as mãos na direção dos ouvidos. E grita.
5 – Int. – Quarto de Davi – Noite – FLASHBACK
Davi está sentado em sua cama. Ele veste a mesma roupa que o vimos usar quando do seu suicido. Ele olha fixamente para a arma que repousa sobre uma toalha branca. Seu olhar revela fascínio. Ele toma o revólver com ambas as mãos e o leva até muito próximo do rosto, como se tivesse nas mãos um animal de estimação ou algo muito precioso e importante.
6 – Ext. – Ruas – Noite – FLASHBACK
Davi está parado em uma esquina. Ele observa com atenção a passagem de cada automóvel. Com uma das mãos, afaga o conteúdo de um dos bolsos. Seu olhar é distante, vazio. Do outro lado da rua, uma prostituta circula impaciente sob as luzes amarelas dos postes.
Um veículo se aproxima. O motorista usa terno e gravata. Logo que para, volta-se para o banco de trás do automóvel à procura de uma pasta. Davi avança. Quando o motorista se volta, Davi está à sua janela. Tem o revólver na mão apontado para o motorista. O motorista coloca a pasta sobre o peito, tentando proteger-se.
DESCONHECIDO2
Você não deveria ter ficado com essa arma.
DAVI
Ela é minha agora.
DESCONHECIDO2
Ela não te pertence. Você sabe disso.
DAVI
Cala a boca! Cala a boca!
DESCONHECIDO2
Você não precisa fazer isso.
DURANTE O DIÁLOGO, OS MURMÚRIOS SURGEM E AUMENTAM, ATINGINDO O ÁPICE NO MOMENTO DOS DISPAROS.
7 – Int. – Fundações do Prédio – Noite
Alice está acocorada junto a uma parede. A lanterna ligada aponta para o vazio. Ela repousa ao lado da arma. Alice tem as mãos nos ouvidos. Lentamente, o som de murmúrios recrudesce. Ela tira as mãos dos ouvidos.
DAVI
Alice, sou eu.
ALICE
Esse barulho… é horrível.
DAVI
Eu sei. Logo vai acabar. PAUSA. Você trouxe a arma.
Alice aponta a luz para Davi. Ele tem sangue coagulado da altura do rosto até o meio do peito, empapando a camisa.
DAVI
Você precisa me ajudar.
ALICE
TRÊMULA. Davi… O sangue… eu vou chamar alguém.
DAVI
Não! Você pode fazer isso.
ALICE
O seu rosto…
DAVI
Eu tentei fazer sozinho, mas não consegui. Elas não deixaram.
ALICE
Elas quem? Do que você está falando?
DAVI
As vozes. Você ouviu. Elas contaram o que eu fiz.
ALICE
Eu não entendo. Isso é horrível demais.
DAVI
Você trouxe a arma. Atire! Não sei o que posso fazer se eu pegá-la novamente. Atirem em mim.
ALICE
Não!
DAVI
Atire em mim! Eu matei um homem hoje, Alice. Eu não pude evitar. Por favor…
ALICE
Não! Eu não vou matar você.
DAVI
As sombras. Elas estão se movendo… Faça isso agora!
Alice deve seguir a ordem de Davi e atirar, ou ela deve sair e buscar ajuda?
—-
Este foi o último rascunho para uma série de curtas que nunca chegou a ser produzida. Ela teria como cenário o Mundo das Trevas, conforme apresentado no livro Hunter: The Vigil, publicado pela White Wolf. Ao final de cada capítulo, o público escolheria o passo seguinte a ser dado por Alice, a protagonista, e essas decisões levariam adiante a história.
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