Changeling: The Lost – Preparativos são tudo o que importa
Sexto Capítulo da Alienação.
Eleuthério desliga o telefone, ciente do perigo que o encara da escuridão. O Espantalho, inerte junto da árvore, desperta temores, mas não os do tipo que se manifestam agora. É outra coisa. É pior e familiar.
- Você passou toda sua vida procurando por mim, e aqui estou novamente, por você.
A figura rotunda junto da árvore é pouco mais do que outra das sombras na madrugada no Parque da Redenção. Eleuthério já o viu de muitas maneiras, mas é como o homem de cabelos cinzentos e roupas fora de moda a cobrir-lhe o corpanzil, óculos e cheiro de grama, que se lembra dele. Adianta-se, e a pouca luz é o bastante para revelar o captor.
– Nada daquilo era real.
– Você abriu mão de toda a felicidade que poderia suportar em favor de um lugar de que não mais faz parte.
– A minha vida é aqui.
– Agora, que se tornou algo feito por mim, não mais.
– Eu não vou voltar.
– Sim, você vai. Porque a felicidade da fantasia é melhor do que a dor da realidade. E quando acontecer, estarei aqui, por você. Como da primeira vez.
Há frustração e impotência nas lágrimas que Eleuthério não se esforça por conter enquanto foge dali.
- Ele foi feito para ser você. Ele sempre desejará ser você.
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A ambulância do Hospital de Pronto Socorro para faiscante junto ao meio-fio. Menos deslumbrante é o ímpeto dos paramédicos. Eleuthério os incentiva aos gritos para depois observá-los, silencioso, das sombras. O Espantalho ainda vive, ao menos conforme o que se entende por viver para uma criatura artificial. Também seu criador observa o procedimento de perto, incógnito a todos que não o objeto de seus esforços.
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Durante a madrugada que resta, Eleuthério vagueia tentando decifrar os rumos da vida por construir. À luz da manhã, percebe-se a caminho do Hospital Psiquiátrico São Pedro, onde a nova e a antiga existências coexistem e conflitam.
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São complexos os segredos do Banhado. Abrir portas é apenas uma porção menor do esforço que transitar por ele demanda. Eleuthério assim descobre quando a passagem criada em um canto discreto do estacionamento leva a nada além de espinhos pontiagudos. Exausto, contenta-se em seguir por meios mundanos ao Dr. Quimera. Os pais, contudo, surgem em seu caminho. Do carro ao elevador, é evidente a debilidade física e emocional de ambos, cabisbaixos, apressados, mal reunindo forças com que sustentar um ao outro.
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Através da entrada da emergência, Eleuthério acessa a ala principal do São Pedro. Vagueia em busca do Dr. Quimera, algo distraído pela movimentação intensa e pelo desejo de saber em que condições o Espantalho deu entrada.
– Claudio. Claudio. Meu Deus do céu!
A voz já lhe foi familiar. Assim como aqueles expressivos, grandes, intensos olhos. Apaixonada? Sim, mas não por ele. Quando desfaz o abraço e olhares se encontram, Eleuthério percebe que Luisa não passa de uma sombra entre suas lembranças.
– Por que tu não estás no quarto? Teus pais acabaram de ligar, vindos do HPS.
Deseja apenas se afastar. Quanto mais tempo juntos, mais provável que ela desperte do estupor e questione a estranheza do encontro imprevisto. Eleuthério economiza nas palavras. Conta com a tolerância despertada após o trauma sofrido e o decorrente comportamento excêntrico. Quando finalmente se despede, “prometo que não vou sumir outra vez”, sorri. Tenta não adiantar as inquietações que certamente irão se abater sobre Luisa.
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Entre Quatro Paredes, de Jean-Paul Sartre. Eis a montagem que anuncia para dentro de algumas semanas O Teatro do Serafim. O prédio fica a poucas centenas de metros do São Pedro; independente, ainda que parte do amplo terreno do Hospital Psiquiátrico. É um bom local para refugiar-se dos olhos da família. A lista de atividades paralelas fixada à parede, associadas a médicos e alas diversas, confirma o papel terapêutico do local.
Lá dentro, após passar por um faxineiro ainda lidando com a preguiça matinal, Eleuthério e Adriana se conhecem. Não de imediato, pois ela está absorvida pelo arranjo de cores e formas dos malabares espalhados pelo chão, mas logo depois disso.
– Oi. Eu gostaria de ajudar.
– Ajudar? Claro, por que não, não é mesmo? Ainda que um pedido de ajuda fosse de se esperar. Mais do que uma oferta.
– Eu posso limpar. E também toco guitarra. Tem um palco ali.
– Limpar e tocar. Parece bom. Mas não são atividades para um homenageado.
– Que quer dizer?
– O Dr. Quimera falou de você, Eleuthério. Bem, suponho que seja Eleuthério, pois já descartei a Branca de Neve.
– Eu…
– Eu posso vê-lo exatamente como é. Por isso, não havia como me enganar. Seja bem-vindo ao Teatro do Serafim. Temo que esteja adiantado.
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Ao longo da manhã que resta e por toda tarde e início da noite, Eleuthério deixa que Adriana fale a respeito de coisas que nunca teve a chance de perguntar. Ela tem a pele morena e cabelos vermelhos. Os óculos retangulares dão um ar esperto, irreverente. Ela é uma pessoa como qualquer outra, não fosse poder ver coisas que outras não podem. E conduzir um teatro experimental situado em um hospício.
A respeito de andar no Banhado, fazer Promessas que não devem ser quebradas, seres chamados de Fadas e trabalho duro Eleuthério descobre um pouco mais.
Já é noite, e o Teatro do Serafim está de portas abertas. Eleuthério ouve, distante, o alarido do grupo que se adensa. Diante do espelho, ajusta a bauta, máscara branca no formato de um bico, complementada por um chapéu de três pontas, um casaco amplo e uma capa preta tecida com seda, a qual reveste os ombros e o pescoço. É o nobre de Veneza.
Duas dúzias de passos separam o camarim minúsculo reservado por Adriana do centro das atenções. Ali, uma centena de pessoas e outras coisas o congratulam, em um vozerio que cresce na medida em que se aproxima. Por trás de máscaras e fantasias, reconhece O Antiquado, Branca de Neve (essa foi fácil) e Juliano Terceiro. O Dr. Quimera dá um abraço de juba, chifres e peçonha falsa.
– Eis que chega nosso recém-chegado!
Congratulações são atiradas em direção a Eleuthério, aturdido. Mal percebe quando Estrela, que parece não ter tido tempo de vestir toda a fantasia para aquela festa, abre caminho.
– O despertador, Claudio. O despertador tocou. O menino. Rápido.
Ela o puxa com força inesperada. São seguidos pelo Dr. Quimera, cuja intervenção irrita a ponto da mais clara demonstração.
– Você não pode nos deixar.
– Eu tenho que proteger minha família.
– Sua família está aqui. E toda ela está feliz por você.
– Tem pontas que eu preciso amarrar, Dr.
– Você está decepcionando muitas pessoas nessa noite, Claudio.
Em companhia de Estrela, ele sai ao encontro de um punhado de horrores.

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